2010-04-27

ruinha

um cão olha-me do fundo da rua preta
e do fundo da rua donde o cão me olha
assustado um vulto passa cego de breu
como se naquele olhar e no espelho seu
não estivesse a fugir um ser que era eu...

montemor-o-novo, abril, 23

2010-04-25

abril

abril rompe e o sangue espraia-se na terra
porque a liberdade transborda dos autos
da antiga chalaça convenientemente calma.
agora o tempo passou e tudo o que o regou
mais não foi do que um coro de velhas rindo
do teu peito largo contra a intempérie...
sempre.

IV bienal de poesia - Silves

2010-04-21

siddal amor


os dedos tocam o caule e pétala a pétala um calor invade-me a pele, por ti, siddal. avanço mesmo pela raiz da água e do gelo dos ossos ígneo coração estoira nos poros. digo-te agora os lábios o veludo evidente da pele o marfim e a boca dentes contra dentes expludo. os olhos são a flor da sede e preso ao ancoradouro dos cabelos fico quando assim siddal me invades com o perfume que há muito sinto. vens pela noite jazente ser que em mim vibra a beleza sem par. nos lábios estou nos lábios fico, siddal amor.

2010-04-20

ekphrasis 0

Não poder adiar-te, verbo austero,
nem a condição minha de cada dia,
cumprir-me poeta, judeu, erradio
e alma em pátria junto ao coração,
sentindo e dizendo contra o vento
- íntima e estranha condição -
ser eu de Viseu e o fora de mim não.

Motion Trio

2010-04-19

Perseguição

Digo condição sem te olhar
cidade bela
ruínas e casario ao luar
e a sombra dela
a ti regresso
recolhida caravela
que persegue o sonho
em cada vela.

2010-04-13

cais

Bulício calmo
embarca comigo
na partida
que é chegada
nos rostos
que são partida
nesta fuga
de madrugada...

2010-04-12

ekphrasis-II

Transbordante de mim
esta é a beleza que contemplo
pelas ruas em volta da catedral
lembrando um presépio
estendido estendal
como um corpo sinuoso e rubro
que vem ao papel
e grita do centro opaco
a força do regresso
à íntima condição...

2010-04-04

"Canto Pascal" de Rodrigo Emílio

“Canto Pascal” de Rodrigo Emílio

Senhor,
ó meu estranho acompanhante.
Dá-me o Teu lenho, por favor.
É preciso que eu cante,
de dor,
na via-sacra incessante.
É preciso, Senhor! Agora e sempre
e doravante…

Com fervor, a Ti me dou.
Eu próprio carrego a cruz
E vou, Senhor, e vou,
Cego de luz!

Na senda sagrada, que à crença recua,
Teu rumo divino e minha marcha acerto
Por onde passada Tua
É sempre caminho
Aberto!...

Sagra-me Teu companheiro
de itinerário.
Conduz-me lá ao topo do outeiro
onde avulta o madeiro
do Calvário.

Que eu não peço socorro.
Exangue e contrito,
Contigo morro
E Contigo ressuscito!

Rodrigo Emílio, Mote para motim, 1971