2010-03-28

2010 e o Verão de 1853: Alexandre Herculano em Viseu

Alexandre Herculano nasceu há duzentos anos e nem a genialidade que se lhe diz reconhecida parece empurrar a sua obra para as mãos dos leitores. Encostado a lugares de eleição de que o Porto, Lisboa, Guimarães e Vale de Lobos são o melhor exemplo, também por Viseu andou o nosso intelectual, em busca do saber sepultado nos Arquivos da Sé.
Em época de jactância e de humores viscosos, são cristalinas as palavras dos escritores clássicos. Tal limpidez, fruto de uma perfeita sazonação estilística, colhemo-la nós, muitas das vezes, em livros de viagens ou em diários. Lembro, “en passant” e em homenagem ao momento, o interessantíssimo relato de Hans Christian Andersen “Uma visita em Portugal em 1866” (há não muito reeditado); convoco, com particular detença, os “Apontamentos de viagem (1853-1854)” de Alexandre Herculano.
E mais se inscreve no nosso íntimo o carácter instrutivo desse textos “leves” e não destituídos de qualidades, quando, como acontece na obra alexandrina citada, os lugares citados não estão fora da circunscrição do espírito, nem tão pouco do sopro do lugar. O rasto textual dos apontamentos do escritor romântico obrigam o cultor da literatura a voltar à cidade outrora inscrita e rediviva pela dimensão da história.
O fascínio e os labirintos do texto tornado público ferem a ágora com os lugares luminosos que a arca da memória sempre conserva. Assim aquele Verão de 1853, no dia 2 de Agosto, em que Alexandre Herculano sobrepuja a cidade, instalando-se em casa de João (da Silva) Mendes, “sobrinho do barão de Foz Côa, um dos cavalheiros mais abastados da Beira e a mais nobre alma que eu conheço naquela província”, como o atesta o escritor em carta a António José de Ávila. Chegado a Viseu por volta das 10 horas da manhã, logo Herculano conclui da equipolência dos elegantes de província face aos elegantes da capital, sendo estes inferiores “nas formas que indicam a força sem danar à delicadeza.” A reflexão produzida, assente na análise dos que lhe estavam perto, na mesa, logo se continuou pelos meandros da política, falando-se, ontem como hoje, na corrupção e na desesperança. Cumprida a refeição e as obrigações costumeiras, Herculano e os amigos (para além do citado João Mendes, o irmão Francisco Mendes e Francisco de Barros Coelho de Campos) visitaram a Cava de Viriato, aludindo-lhe interrogativamente o escritor como “um acampamento romano como o de Condeixa Velha”, apresentando dela alguns outros traços descritivos.
No dia seguinte, 3 de Agosto, acompanhado pelo governador civil, Dr. Manuel de Melo e Castro de Abreu, e outras entidades viseenses, visitou Alexandre Herculano o Seminário e a Sé, deles louvando, respectivamente, a “escada singular” e a “bela abóbada ogival do século XV artesoada.” Mais comparou a mata do Fontelo à do Buçaco.
Nos dias seguintes, entre 4 e 11 de Agosto, trabalhou o historiador no Arquivo da Sé, trazendo à tona do mundo a lenda de Vasco Fernandes e novas notícias sobre a Cava (terá tido quatro entradas de cantaria; esteve fechada, com uma porta, no século XV; teve no interior a extinta capela de S. Jorge…).
Por 12 de Agosto, Herculano abandona a cidade e, com a manhã a romper perto de Cavernães, dirige-se já para o Mosteiro de Ferreira de Aves. A rescendência desta presença impoluta corre ainda em cada recanto da cidade. Da sua integridade falam, por exemplo, muitas das suas cartas. Uma delas classifica José de Oliveira Berardo como “quem deu a este país o seu Camões da pintura.”
Tal capacidade de dar o seu a seu dono é apanágio dos verdadeiros intelectuais e dos homens que verdadeiramente ensinam. Assim o diz o seu canto exilado no passo poético que cito: “Lá no meu Portugal, onde a frescura / Da ribeira perene, da floresta / Tem valor, porque o sol tem luz, tem vida!”.

2010-03-26

noite dentro

não é da espuma dos dias que a minha forja se alimenta
porque dessa oportunidade fujo e nada compro ou quero
que não seja este delírio da pele fogo íntimo que abrasa
ao vento dobrando o labirinto do corpo e o riso brando…

fendendo a noite enigmático um punhal é lâmina funda.

2010-03-16

"Cultura no feminino: da produção à fruição", com Dalila Rodrigues

"Cultura no Feminino: da produção à fruição
com Dr.ª Dalila Rodrigues"
Quarta-feira, 17 de Março às 21:00
FNAC Viseu

No âmbito do Centenário da Proclamação do Dia Internacional da Mulher, o Núcleo de Viseu do Movimento Democrático das Mulheres (MDM) leva a efeito no dia 17 de Março, pelas 21h00m, no Auditório da FNAC em Viseu, um colóquio sob o tema "Cultura no Feminino: da produção à fruição". Será oradora a Dr.ª Dalila Rodrigues, Historiadora de Arte. Esta iniciativa insere-se na preparação do VIII Congresso do MDM a realizar em 15 e 16 de Maio deste mesmo ano, em Lisboa.

2010-03-11

Eros & Thanatos na Poesia

12/Mar - 21h30

Clube Literário do Porto



Eros & Thanatos na Poesia

O Amor e a Morte na poesia - conversa para 2 autores contemporâneos. Alexandra Malheiro e Rui Almeida em volta dos poemas à mesa do Clube Literário do Porto 6ª feira, 12/Março pelas 21h30.

Com a participação de Celeste Pereira a animar a conversa. Venha tomar um café e junte-se a eles.

2010-03-10

parto

escrevo para dentro do tempo
como se entre mim e a folha
nada mais houvesse ou fosse.
para o abismo lanço o verbo
e magicamente música vem
aos tímpanos iluminando-me
as arestas mais recônditas…
assim eu e as lexias súbitas
inundamos esta praia de dor.

2010-03-07

ouve

digo o dizível possível
porque o silêncio rompe
e inunda de verdade isto
que tu dizes saber e não
sabes claramente intuir.

que importa pois a proa
se com ela te afundas…

2010-03-05

manifesto

"E em Viseu há liberdade de imprensa?..." por Carlos Vieira e Castro

E EM VISEU HÁ LIBERDADE DE IMPRENSA?...




Paulo Rangel fez uma triste figura no Parlamento Europeu ao acusar o governo português de querer controlar a comunicação social, pondo em causa a “liberdade de expressão” em Portugal, dando como exemplo o caso de Mário Crespo que “viu censurada uma crónica sua, por sugestão, ou aparente sugestão, do primeiro-ministro”, pelo que Portugal já só formalmente seria um Estado de Direito. Em primeiro lugar, o candidato à liderança do PSD devia ser mais rigoroso. É verdade que as dúvidas deontológicas do director do Jornal de Notícias seriam justas se estivesse perante uma notícia, mas, tratando-se de um artigo de opinião, apesar da fragilidade de um relato às três tabelas, parece-me um excesso de zelo (chamar-lhe censura é exagero. Escrevi crónicas durante dois anos para o J.N. e nunca fui censurado). No entanto, responsabilizar Sócrates por tal acto concreto não deixa de ser um excesso de imaginação. Em segundo lugar, o mesmo Paulo Rangel, em 21.10.2009, no Parlamento Europeu, votou contra uma resolução (reprovada por três votos) que criticava os ataques de Berlusconi à liberdade de imprensa em Itália, o que já tinha provocado uma manifestação, em 4.10.2009, de cerca de 300 mil italianos, fartos dos escândalos de tráfico de influências do primeiro-ministro que, para além dos “media” públicos, controla três canais privados de televisão e vários jornais.

Já quanto às revelações do jornal Sol, aí sim, importa esclarecer os portugueses se o Governo ou o primeiro-ministro interferiram na decisão da PT de comprar a TVI. Esta é uma questão política que compete ao Parlamento português investigar, uma vez que se trata de matéria que não está sob investigação judicial. Mesmo dentro do PS há quem defenda, como Vera Jardim, que se deve “ouvir todos os envolvidos” , uma vez que, como também disse Ana Gomes, “o conteúdo não foi desmentido e não basta varrer o lixo para debaixo do tapete.”

Claro que em matéria de controlo da comunicação social não há virgens inocentes. Ficou provado a interferência de dois ministros do Governo de Santana Lopes na decisão da TVI de acabar com o programa de Marcelo Rebelo de Sousa. O “Expresso” não publicou uma crítica literária demasiado negativa sobre o escritor Miguel Sousa Tavares, cronista do jornal, e dispensou o jornalista João Carreira Bom depois deste ter escrito uma crónica a chamar “rei do telelixo” a Balsemão, dono daquele semanário. E também não esqueço que o mesmo Sol que agora trava uma lucrativa cruzada semanal pela liberdade de expressão, publicou um editorial, em 2005, onde o seu director afirmava que “as manifestações são legítimas, mas têm todas um fundo antidemocrático, porque querem obrigar os governos a tomar medidas contrárias aos seus programas”.

Vicente Jorge Silva, que depois de ter sido director do Público (onde deu uma ajuda a Guterres para chegar a primeiro-ministro) chegou a ser deputado independente do PS, foi dos primeiros a denunciar, já há uns anos, numa entrevista, a obsessão de Sócrates em controlar a comunicação social. Não me admira, portanto, que vão surgindo novas revelações, novas contradições e novas ondas que Sócrates dificilmente surfará.

Hoje, a imprensa mundial atravessa uma crise sem precedentes, devido à concorrência da Internet e dos jornais gratuitos. As falências e as fusões levaram à concentração da propriedade, o que limita a diversidade da oferta. Os jornais deixam de pertencer a jornalistas profissionais e passam para as mãos de empresários, bancos ou grupos multinacionais com o lucro como objectivo exclusivo ou como instrumento de pressão sobre o poder político.



O DECLÍNIO DA IMPRENSA REGIONAL



Em Viseu e na nossa região para além de terem desaparecido alguns títulos (Voz das Beiras, Correio Beirão, Viseu Informação, Banca de Ideias) temos vindo a assistir ao declínio dos jornais e rádios locais. Também a imprensa nacional tem vindo a reduzir a sua cobertura regional. O Público e o Jornal de Notícias acabaram com a “Edição Centro”, ficando agora a nossa região integrada na “edição Porto”, do primeiro, e “edição Norte”, do segundo. O Público só reserva, por norma, uma folha para o “Local”, o que faz com que muito raramente apareça uma notícia sobre Viseu. O Jornal de Noticias (o jornal mais vendido do país graças à excelente cobertura regional, sobretudo no Norte e Centro), depois da fusão por incorporação do Diário de Notícias, em 2003, despediu centena e meia de jornalistas, incluindo um dos dois excelentes profissionais que tinha em Viseu, Rui Bondoso. Também a Rádio NoAr viu asua imagem de marca, a qualidade informativa, na “escola” da TSF, com quem trabalhava em rede, ao ficar sem noticiários locais aos Sábados e Domingos, devido ao despedimento do jornalista Clemente Pais da Silva. Com 25 anos de carreira (Diário Popular, Público, Sábado, TSF) Clemente foi autor de uma reportagem de antologia na “Sábado”: “De mão estendida”, com fotos de Eduardo Gageiro, tendo passado duas semanas disfarçado de mendigo. Fernando Ruas, na apresentação da sua última candidatura à Câmara Municipal de Viseu, dedicou uma parte do seu discurso a “malhar” na “rádio do costume”, a “que faz directos com os amigos”, numa alusão à reportagem que Clemente Pais da Silva fez de uma Conferência de Miguel Ginestal que, por sinal, até nem foi transmitida em directo.

Foi graças a uma reportagem da Rádio NoAr que ficámos todos a saber que o nosso presidente da Câmara incitara os presidentes das Juntas a correrem à pedrada os vigilantes da natureza. Não se sabe se as queixas de Fernando Ruas tiveram alguma coisa a ver com o despedimento de Clemente Pais da Silva, mas a verdade é que depois do caso das pedradas, deixou de se ouvir publicidade da autarquia na NoAr e, democraticamente, nas outras rádios da cidade. Também não se vê publicidade das grandes empresas da região nos “media” locais.

O Grupo Lena, que recentemente comprou a Rádio NoAr, já tinha comprado o Jornal do Centro, donde foram despedidos vários jornalistas. Um dos primeiros foi o cartoonista Gil, com a desculpa de que o grupo Lena já tinha cartoonistas noutros títulos. Nunca mais o jornal viu um cartoon. Mas consta que muita gente bem colocada se sentiu incomodada com o humor satírico de Gil. Quem perdeu foi o jornal e os seus leitores. Quem perde com este afunilar da comunicação social é a democracia, a cidade, a região e o país, cada vez mais sorumbático.

Carlos Vieira e Castro