2007-12-31

"O desejo de futuro", por Manuel Gusmão ("Público")




"A cultura do blogue nacional", por J. Pacheco Pereira


A CULTURA DE BLOGUE NACIONAL

Os blogues, a blogosfera, são um facto cultural novo nos últimos cinco anos. Não abunda assim tanto a novidade no domínio lato da cultura, para que possa passar despercebida, ou melhor, notada mas não percebida, ou erradamente percebida. Muita coisa nos blogues vem em continuidade do passado, existia noutros meios e sob outras formas, mas mesmo a que apenas fez a transmutação dos media clássicos para os blogues como media mudou também com o meio. Mudou e continua a mudar.

Existe por isso uma nova "cultura de blogue", com traços comuns com idênticas culturas da Rede urbi et orbi, mas também com traços nacionais próprios. Não é por se usar a mesma ferramenta de software que os americanos, brasileiros, japoneses e chineses que deixamos de ser portugueses, de levar para lá o nosso mundo exterior. Não somos ricos na Rede se somos pobres cá fora, não somos sofisticados em linha, se somos trogloditas cá fora, não sabemos mais e pensamos melhor nas páginas do Blogger do que pensamos cá fora, nos cafés de província, ou no Bairro Alto ou no Lux ou nas páginas dos jornais, não se é cosmopolita lá dentro se se é provinciano cá fora, não se é subserviente cá fora e independente no ecrã diante do computador, não se é burro cá fora e inteligente lá dentro.

O que se passa é que esse verdadeiro mostruário em linha, feito de mil egos à solta, revela mesmo a nossa pobreza, a nossa rudeza, a falta de independência face aos poderosos, grandes, pequenos e médios, os péssimos hábitos de pensar a falta de estudos e trabalho, de leitura e de "mundo", que caracterizam o nosso "Portugalinho". Nem podia ser de outra maneira. Com a diferença que nos blogues o retrato é mais brutal porque mais arrogante e mais solto, ou pelo anonimato, ou pela completa falta de noção de si próprio de quem, por poder escrever sem edição para os milhões de leitores potenciais da Rede, acha que é crítico de cinema instantâneo, engraçadista brilhante, analista político, escritor genial de aforismos, herói único da denúncia dos males do mundo, e portador de todas as soluções que só não são aplicadas porque os outros, a começar pelo blogue do lado e a acabar no fim do mundo, são todos corruptos, vendidos e tristes. Como os blogues são viveiros de elogios mútuos e de complacência, estes traços alastram como um vírus e tornam-se comunitários, definidores do meio. Mas, até porque nos dá um retrato único da mesquinhez da vida intelectual e cultural nacional, o lado do não dito, do não enunciado no Jornal de Letras, no Ipsilon, nas notícias culturais do Diário de Notícias e no contínuo que vai das novas colunas sociais disfarçadas de sociologia do presente e no jornalismo light até às revistas do jetset, a blogosfera é interessante e única.

Eça, se fosse hoje, poderia escrever sobre os blogues o que escreveu sobre os jornais:

"A tua ideia de fundar um jornal é daninha e execrável. (...) tu vais concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os juízos ligeiros, se exacerbe mais a vaidade, e se endureça mais a intolerância. Juízos ligeiros, vaidade, intolerância - eis três negros pecados sociais que, moralmente, matam uma sociedade! (...) Foi incontestavelmente a Imprensa que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou no nosso tempo o funesto hábito dos juízos ligeiros. (...) É com impressões fluidas que formamos as nossas maciças conclusões. Para julgar em política o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento. Para apreciar em literatura o livro mais profundo, (...) apenas nos basta folhear aqui e além uma página (...) . Principalmente para condenar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos "Este é uma besta! Aquele é um maroto!" Para proclamar "É um génio!" ou "É um santo!" oferecemos uma resistência mais considerada (...) Assim passamos o nosso bendito dia a estampar rótulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não há acção individual ou colectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos prontos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda."

Tudo isto é certeiro, mas, se ficássemos por aqui, não percebíamos a novidade, a mesma, aliás, que Eça defrontava com o papel crescente da imprensa. Mesmo assim, e até por isso, os blogues são coisa nova, são um fenómeno de per si. Trazem a quantidade, a lei dos grandes números, trazem as "massas". É verdade que apenas uma escassíssima minoria escreve blogues que caibam nesta categoria para além do puro confessional, e que apenas uma minoria os lê, mas nunca na história tanta gente se revela assim no espaço público, acompanhando mutações de geração e de hábitos culturais que vai no mesmo sentido de, por exemplo, a desvalorização da privacidade, do tempo lento, do silêncio, da palavra escrita em relação às imagens em movimento. E isso é uma novidade que está para ficar e evoluir. Evoluirá a partir daqui, desta logomaquia, mas evoluirá acrescentando uma nova dimensão ao retrato das diferentes sociedades e mentalidades, incluindo Portugal.

Um dos rodriguinhos da escrita em Portugal é ter que sempre enunciar que há excepções. Há excepções? Claro que há, mas são mesmo excepções e não alteram a regra. A regra é esta. Eu estou a falar da regra.

É ainda cedo para medir o papel dos blogues em Portugal enquanto consumo cultural e mediático, como fonte quase única de conhecimentos "dinâmicos", envolventes, para as gerações que se estão a "educar" mais fora da escola do que dentro dela. Mas há indícios, principalmente nos mais jovens, do aparecimento de uma "cultura de blogue", de uma aproximação cultural ao mundo feita de pouco mais do que a leitura de blogues e de outras páginas da Rede, que têm mecanismos de social networking como as variantes nacionais do Facebook, ou o Hi5, o Second Life, e o mecanismo de trocas de "favoritos" que vai dar ao YouTube. Em Portugal, a absorção do mundo - política nacional, internacional, produtos culturais da moda, discursos e julgamentos, escolhas de podium e de agenda - pelos blogues difere da que se poderia obter através dos media tradicionais.

Para uma geração de jovens que só lê escassamente os jornais, para além dos desportivos e dos gratuitos, a "cultura de blogue" começa a deixar os seus traços próprios: redução da temática considerada "importante" ao que é discutido nos blogues, valorização do posicionamento comprometido, de "prós e contras", maior radicalismo político e opinativo, mecanismos de identidade grupais ou tribais, para além da absorção generalizada dos males que o Eça atribuía aos jornais: "juízos ligeiros, vaidade, intolerância", "impressões fluidas" e "maciças conclusões". Está longe de ser uma boa escola, mas é a escola, mais intolerante, mais a preto e branco, mais agressiva nas opiniões e menos ponderada, mas também mais democrática, no sentido em que envolve muito mais gente do que a que em qualquer altura teve sequer a veleidade de ter uma opinião, muito menos dá-la. Não é um fenómeno "mau" por si só, tem também aspectos "bons", na proporção desigual que é habitual para Portugal nestas coisas, mas caminha para ser um instrumento suplementar que reforça as duas tendências em curso nos nossos dias: a da substituição da democracia pela demagogia e a espectacularização da sociedade.

A blogosfera é tão avessa à crítica como os media tradicionais, com a agravante de que o envolvimento narcísico é tão forte que, mesmo dentro de blogues colectivos, a mais pequena fractura se torna explosiva. Os blogues não gostam de ser objecto de críticas e, como é obvio, tem uma alta noção de si próprios e estão tão cheios de autocomplacência e de elogios mútuos que consideram um anátema qualquer discurso que lhes pareça exterior e que os ponha em causa, a eles e às regras do jogo que estabeleceram. Desde o início da popularização da blogosfera o chamado "metabloguismo" era considerado um desvio da genuinidade do discurso em linha, mas, sem reflexão crítica sobre o próprio meio, sobre o meio em Portugal, que introduza critérios de qualidade e exigência que os blogues são lestos a exigir a outros mas não a aplicar a si próprios, os blogues serão apenas mais uma câmara de ressonância da pobreza da nossa vida cívica.

Como também tenho um blogue, deixo aos leitores o julgamento do que se me aplica do que aqui digo.

(versão do Público, 29 de Dezembro de 2007, recolhida em abrupto)

2007-12-29

Dalila Rodrigues reactualiza vida e obra de Grão Vasco


Dalila Rodrigues reactualiza vida e obra de Grão Vasco
A historiadora de arte Dalila Rodrigues, ex-directora do Museu Nacional de Arte Antiga, reactualiza a vida e obra de Grão Vasco, o primeiro pintor português que assinou os seus quadros, num álbum a editar esta semana.

«Grão Vasco é um dos maiores pintores portugueses e foi o primeiro a assinar o seus quadros», disse à Lusa Dalila Rodrigues.

«Lamentação aos pés de Cristo» foi a primeira tela assinada por Grão Vasco, «por volta de 1520».

«Vasco Fernandes, assim era o seu nome de baptismo, assinou exactamente VFRD. A segunda tela está assinada em latim, Velacq e destinava-se ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra», explicou a investigadora.

O álbum, profusamente ilustrado com obras do pintor viseense, «reactualiza a vida e obra de Grão Vasco, sendo uma proposta de percurso artístico, com uma abordagem sistemática da primeira à sua última obra», disse.

Uma das questões para as quais Dalila Rodrigues encontrou fundamento documental foi o nascimento de Vasco Fernandes numa casa junto a um moinho.

«Na realidade há documentos que vão ao encontro da tradição oral que referem isso mesmo. Há de facto documentos que falam do moinho do pintor», disse.

Para Dalila Rodrigues esta «é uma obra para um público interessado e não especializado, ainda que as comunidades científica e académica possam ver nele um instrumento de trabalho».

Segundo a autora, das 80 obras atribuídas a Grão Vasco «apenas cerca de 40 serão seguramente de sua autoria, havendo muitas que, sendo-lhe atribuídas, pertencem ao seu discípulo Gaspar Vaz». Dalila Rodrigues está aliás a preparar uma monografia sobre este pintor.

O álbum, editado pela Alêtheia, além da reprodução de telas do pintor como «S. Pedro», o Tríptico da Sé de Lamego ou o retábulo da de Viseu, é dividido em quatro partes: a biografia, documentos históricos e aura mítica que se desenvolveu à sua volta, o percurso artístico, as parcerias e as experiências individuais, e a quarta, sobre a oficina de Viseu.

Dalila Rodrigues investiga desde há muito a obra do pintor, tendo comissariado a sua primeira exposição no estrangeiro, em Salamanca, em 2002.

Antiga directora dos museus Grão Vasco e Nacional de Arte Antiga, é actualmente professora dos institutos Politécnico de Viseu e Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, e está a ultimar uma história da arte portuguesa que sairá em Abril.

Diário Digital / Lusa

20-12-2007 10:52:20

Vida e obra de Eça de Queirós em ciclo de conferências na Europa, Brasil e EUA


Durante o próximo ano
Vida e obra de Eça de Queirós em ciclo de conferências na Europa, Brasil e EUA
28.12.2007 - 13h48 Lusa
A vida e a obra do escritor Eça de Queirós são o tema de um ciclo de conferências internacionais que vai decorrer, em 2008, em diversos países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil, foi hoje anunciado.

Este ciclo, liderado por Marie-Helene Piwnik, da Universidade de Sorbonne, em Paris, resulta de um protocolo assinado entre a Fundação Eça de Queirós e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.

A primeira conferência será proferida, em Janeiro, na Universidade de Barcelona, Espanha, por Elena Losada Soler, estando prevista para Fevereiro uma outra de Marie-Helene Piwnik, na Universidade de Sorbonne. Já confirmada está também uma conferência de Lucette Petit, em Outubro, no Centro Cultural de Paris da Fundação Calouste Gulbenkian.

Ainda sem data, estão previstas iniciativas idênticas com Frank de Sousa, na Biblioteca Pública de New Beford, EUA, de Hélder Macedo, no King's College, em Londres, de Alan Freeland, em Southampton, e de Elza Miné, em S. Paulo, Brasil.

O protocolo assinado entre a Fundação Eça de Queirós e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior prevê ainda a colaboração das duas instituições na realização anual de cursos de Verão sobre o percurso biográfico e ficcional de Eça de Queirós. Estes cursos serão destinados a alunos do ensino superior nacional e estrangeiro, mas também a especialistas, estudantes estrangeiros graduados e a alunos com pós-graduação.

O protocolo determina ainda a realização de acções de formação sobre Eça de Queirós e a Geração de 70 para estudantes do ensino superior e investigadores, assim como a organização de visitas de estudo, concursos e estágios.

Nos termos deste acordo, o ministério, através da Direcção-Geral do Ensino Superior, vai financiar os cursos de Verão com um montante máximo de 20 mil euros, tendo em vista a atribuição pela Fundação Eça de Queirós de dez bolsas, de 600 euros cada, a estudantes portugueses do ensino superior para frequência do curso e outras dez bolsas para especialistas e estudantes estrangeiros, que também terão direito a um subsídio de viagem.

A Fundação Eça de Queirós, sedeada na Quinta de Vila Nova, em Tormes, Baião, foi criada em Setembro de 1990 com o objectivo de divulgar e promover a obra daquele que foi uma dos maiores nomes do romancismo português. É presidida por Maria da Graça Salema de Castro, sobrinha-neta de Eça de Queirós.

2007-12-27

benazir

benazir e o fogo dentro da boca
como ao terreiro as balas e o rei.

os cobardes são assim sem aviso
cruéis e bárbaros torpemente.

o inverno ao paço foi chamado
como o sol declinado pela pólvora.

um dia o negrume será arminho
como a neve sinal deste queixume.

"O divino Vasco", a propósito de "Grão Vasco" de Dalila Rodrigues



Agradecimentos ao Carlos Monteiro

2007-12-26

"Misérias domésticas", por António Barreto


Misérias domésticas

23.12.2007, António Barreto, "Retrato da semana" (Público)

A impunidade, a irresponsabilidade e o branqueamento parecem indispensáveis às obras e aos concursos públicos. Depois das glórias internacionais, chegou a vez das nacionais. Antes mesmo de acabar a presidência portuguesa, foram inauguradas as estações de metropolitano do Terreiro do Paço e de Santa Apolónia. Foi momento alto para a obra pública e para a vida do Governo. A luzidia comitiva fez o que tinha a fazer, accionou os sistemas, inaugurou e cumprimentou. Sócrates fez discurso. O melhoramento dos transportes que se anuncia é indiscutível. O conforto para os que fazem a trasfega todos os dias aumentou muito. Há décadas que estas obras deveriam estar feitas. A principal estação de caminho-de-ferro da capital não tinha metro, caso certamente único em metade do mundo, e a outra metade não tem metro! O mais importante ponto de passagem, durante décadas, entre as duas margens do Tejo não tinha ligação directa entre barcos, comboios, autocarros e metropolitano! Toda esta obra é discutível, pelo sítio, pela dimensão e pela solução adoptada. Com certeza. Mas os benefícios parecem, para já, inquestionáveis. Só que... A obra demorou dez anos a mais. E custou muitos milhões de euros a mais, pelo menos 140. A câmara e o Estado foram relapsos, as empresas construtoras não previram os graves acidentes ocorridos, nunca foram apuradas as responsabilidades pelos atrasos, pela imprevidência, pelos prejuízos e pelos custos exagerados. As inspecções não funcionaram, a fiscalização também não. Muito menos a justiça. A impunidade, a irresponsabilidade e o branqueamento parecem indispensáveis às obras e aos concursos públicos. Esta é apenas a última de uma longa e permanente série de obras públicas sem controlo nem planeamento. E, ao que parece, sem honestidade e rigor.
O julgamento da UGT e de mais de 30 dos seus dirigentes, entre os quais o antigo secretário- -geral Torres Couto, chegou ao fim. Com uma excepção (mas com crime prescrito), os arguidos foram todos absolvidos. Falta de provas. Acusações não fundamentadas. Ausência de documentação demonstrativa. Foram estas as conclusões do tribunal. Os factos alegados datam de 1990. O processo foi iniciado em 1995. Foram necessários 17 anos! Perderam-se vidas e carreiras. Não se fez justiça.
A ASAE decidiu responder aos seus críticos. Ou antes, o secretário de Estado do Comércio, Serviços e Defesa do Consumidor publicou um comunicado no qual investe contra os críticos da actuação daquela polícia da segurança alimentar. É, a todos os títulos, um comunicado notabilíssimo. Muito daquilo que a ASAE e o Governo são acusados é totalmente confirmado por este comunicado, que é uma verdadeira obra-prima! Num estilo de grande burocrata despótico e num exercício de puro cinismo técnico e jurídico, garante que nada é proibido, "desde que...". Bolas-de-berlim na praia, castanhas assadas, facas de cozinha, colheres de pau, açorda de pão velho e produtos artesanais, tudo é permitido, "desde que...". No "desde que..." está a chave. Os produtores têm de estar certificados, as facas descontaminadas, as colheres higienizadas, as gorduras medidas, os aromas calibrados, as licenças actualizadas, os géneros embalados, os procedimentos normalizados, as torneiras automatizadas, as mãos desinfectadas, as temperaturas aferidas, os queijos datados, o fiambre etiquetado, a ventilação assegurada, os transportes refrigerados, as licenças regulamentadas, as certificações validadas, as inscrições conferidas, os funcionários identificados, os géneros protegidos, os produtos separados e os operadores licenciados. Desde que tudo isto seja feito e esteja assegurado, há bola-de-berlim e croquete.
Com este mês de Dezembro, iniciou-se mais uma campanha de promoção de Portugal no mundo. São dezenas de cartazes, de enormes dimensões, nas cidades portugueses e centenas de inserções em revistas e jornais do mundo inteiro. Portugal foi transformado na "West coast of Europe". As imagens reproduzem as caras dos portugueses de sucesso, Mourinho, Ronaldo, Mariza e outros. É a mais vistosa de todas as saloiices em que este Governo (e outros antes dele...) se empenhou. É um velho hábito dos países do Terceiro Mundo e de algumas ditaduras que consiste em comprar páginas de jornal e minutos de televisão para se promover. Escolhem-se umas personalidades com hipóteses de serem reconhecidas e tenta-se convencer os putativos clientes de que este país é todo assim, feito de belas paisagens e de pessoas excepcionais. O dinheiro que se gasta com isto é colossal, mas talvez nada de muito grave. Apesar de inútil. O que mais choca, além da capacidade de influência no Governo que as agências de publicidade assim exibem, é a atitude de quem encomenda estas campanhas. Quem assim procede está a dizer aos outros que o país, sem campanha, é desconhecido e ninguém dá conta dele. São justamente os países que têm pouco a oferecer, que nem pela sua mediocridade se distinguem, que não pesam nas balanças da fama e da reputação, que são destituídos de interesse especial e que se revelam razoavelmente simplórios e longínquos, que sentem a necessidade de se promover e de repetir a sua excelência, a paz, o sossego, a beleza e os tesouros escondidos. Quem assim age está plenamente convencido de que o seu país não vale grande coisa e de que tem de fazer estas campanhas. Os responsáveis julgam que tudo se compra com publicidade, mesmo ridícula. O resultado é o previsível. Quem vir os cartazes e seja capaz de reconhecer aquelas individualidades de excepção pensará imediatamente que o país não tem mais nada a oferecer e pretende, com as excepções, convencer os estrangeiros. Portugal não precisava desta campanha para nada. Para absolutamente nada! Talvez o Governo precise, mas o país não.

"Firmado Mac. Carteles de cine de Macario Gómez" na Brontë



"Conto de Natal", por João César das Neves


Um dia olhei à volta e vi o mundo como nunca vira. A realidade é uma floresta. Eu parecia estar em cima de uma árvore, no meio de muitos ramos grossos e frondosos, folhas, rebentos e frutos. Toda a minha actividade desenrola-se por entre esta folhagem. O meu trabalho e azáfama, os meus desejos e frustrações, todas as minhas viagens, correrias, tarefas e divertimentos têm lugar nas copas de um denso bosque. Vi as ruas e casas, salas e corredores formados do material vegetal da selva. Reencontrei todos os meus colegas e conhecidos, amigos e familiares, cada um na sua labuta, todos fazendo tudo equilibrados nos troncos, ramos, folhas e caules daquele espesso arvoredo.
Tornou-se então clara a natureza da minha existência, que antes sempre me tinha perturbado. A permanente insegurança da realidade humana fica compreensível se soubermos que vivemos no topo ondulante de um bosque batido pelo vento. Os obstáculos que sentimos no quotidiano, a confusão e incerteza do nosso destino, ficam subitamente claros. É difícil ver através das hastes e folhas. É penoso mover-se por entre caules, lianas e trepadeiras. Vivendo no topo de uma floresta, é evidente a razão por que as coisas não andam como queremos.
Então, olhando para baixo, tive um sobressalto. Os ramos onde vivo estão suspensos muitos metros acima de um nevoeiro cerrado que parece cobrir um pântano. O cheiro nauseabundo, o chapinhar e os roncos medonhos que de lá sobem são apavorantes. Entrevêem-se cristas escamosas, focinhos monstruosos. A nossa vida precária baloiça-se por cima de um atoleiro repugnante e sangrento. A vida humana titubeia sobre o abismo. Ninguém parece dar-se conta da situação. Alguns filósofos meditam sobre isto, ouvem-se muitas histórias de incautos engolidos pelo lamaçal. Mas sente-se um esforço colectivo para ignorar a realidade e esquecer a ameaça. Todos se agarram com força aos ramos e contentam-se com a vidinha, intensa ou pacata, no meio das folhas. De olhos finalmente abertos, senti que não conseguia mais permanecer naquele lugar. Como podia deixar escoar a minha vida num matagal frágil por cima da catástrofe? Como achar isso normal, corrente, tolerável?
Foi então que reparei numa grande luz que vinha do Oriente. Por entre a folhagem entrevi um clarão que não parecia apagar-se. Corri pelo meio dos troncos e cheguei à margem do pântano onde, de uma enorme muralha dourada e brilhante, partia a luz. Não consegui ver o topo daquela parede imponente, feita de grandes blocos de pedra. De ambos os lados não se vislumbravam os extremos . Era imensa.
Vi então que entre a muralha e o arvoredo do pântano havia uma estreita faixa de areia onde se encontrava uma pequena multidão. Desci da árvore e perguntei o que era aquilo. Disseram-me que era o muro da cidade das delícias, onde se vive feliz para sempre. Julguei que a muralha era para manter longe os invasores, mas um velho explicou: "Não foram os habitantes da cidade que fizeram o muro. Fomos nós, forçados pelo dragão que vive no meio do pântano." Este paradoxo era o tema de conversa de toda aquela gente, que queria passar sobre a muralha luminosa. Alguns diziam ter recebido mensagens do Senhor da cidade e saber como fazer uma escada. Asseguravam que a subida viria do esforço e sacrifício. Outros falavam de meditação ou repetiam leis e cultos para saltar o obstáculo.
Eu perguntei: "Já se lembraram de procurar uma porta?" Olharam para mim com desprezo e um respondeu: "Se és dos que acreditam que há uma porta, vai para ali ter com os teus amigos." Então reparei que, um pouco mais adiante, havia na praia um grande grupo que parecia olhar todo para um mesmo local. Aproximei-me e notei uma outra multidão, semelhante à primeira. Mas esta estava a cantar. Naquela zona a base da muralha escurecia e parecia abrir uma espécie de caverna. Era para ali que toda aquela gente olhava. De dentro vinha uma luz ainda mais forte que a que saía das pedras do muro. Pareceu-me ouvir, vindo da gruta, o som de uma criança a chorar.

"A Abelha e o Natal", por Marcia Frazão


Quando o natal se aproximava, a cozinha de Virgínia misteriosamente ficava com cheiro de mel. E se você esticasse um pouquinho mais o olhar decerto avistaria uma abelha. "A rainha", como Virgínia dizia. Confesso que não era tarefa fácil encontrá-la. Havia muitas panelas, bules, xícaras, potes, tigelas, peneiras, coadores, paninhos e panões que anuviavam a vista e escondiam a danada sabe-se lá onde. Mas depois de transcorrido o tempo, entre os amassos na massa do pão , a modelagem dos biscoitos e a cascata de chocolate sobre os pães de mel, eis que surgia a fujona! Mas não pense você que a abelha era uma abelha comum. Não, a abelha da cozinha de Virgínia possuía "estranhas" propriedades. Era uma abelha mágica! Dadeira de dádivas, ouvideira de desejos. E como ela dava e ouvia! A abelha da cozinha de Virgínia gostava de ouvir as coisas que até Deus duvida e era mestra em realizar os desejos impossíveis. Aliás, quanto mais impossíveis eles fossem, mais ela se esmerava em torná-los fáceis e banais. Mas não pense você que ela dava tudo isso de mão beijada. Para tanto era preciso seguir algumas recomendações. A primeira, e talvez a mais importante, era imaginar coisas que corassem e dilacerassem as convicções. Ah, essa era tão difícil como encontrá-la em meio as tralhas da cozinha! Com um pouco de imaginação corava-se de pronto, mas dilacerar as convicções... era osso duro de roer! Mas quando a tarefa era cumprida, não havia jeito de voltar atrás. A danada cumpria a palavra! Depois, a danada sumia deixando no ar um zumbido e a impressão de que tudo não passara de um sonho. E era nessa hora que entrava em cena a magia: Virgínia retirava do forno um enorme pão de alecrim com formato de abelha."A Rainha", como ela mesma dizia! O comíamos à meia-noite do dia 24 de dezembro, regado com muito vinho e manteiga de nata. Virgínia nos pedia entâo para reservarmos o último naco e o guardássemos para a massa do pão do natal seguinte. "Coisas de Portugal", como ela mesma dizia. Não sei se pela magia da abelha ou pelo tempero de mel, o ano transcorria regado ao doce aroma de uma colméia escondida num pé de alecrim... Bem, essa é uma lembrança de natal que eu quis compartilhar com você. E também porque estou enviando a abelha de Virgínia para a sua cozinha. Ela certamente realizará todos os seus desejos e lhe trará muita alegria. Bizzzzzzzzzzzzz... Ouviu o zumbido dela? mil luas melíferas pra vc! Marcia Ops, já ía me esquecendo da receita! Segue ela abaixo:
Pão de Alecrim
Ingredientes: 1 colher de sopa de sal 1 colher de sopa de folhinhas (frescas) de alecrim 30 gramas de fermento fresco ou 2 colheres de sopa de fermento em pó cerca de 7 xícaras de farinha de trigo 2 1/2 xícaras de água 1 colher de sopa de manteiga amolecida 1 ovo ligeiramente amolecido 1 gema 1 colher de sopa de mel
Modo de Fazer: Numa tigela grande misture o sal, o alecrim, o fermento e 2 1/2 xícaras de farinha de trigo. Numa panela com capacidade para 2 litros, esquente a água e a manteiga em fogo baixo, até ficar bem quente. Adicione gradualmente os líquidos aos ingredientes secos, bata a mistura vigorosamente. Acrescente mais 3 1/2 xícaras de farinha e bata até obter uma massa macia e pegajosa. Coloque-a numa tigela e cubra; deixe crescer até dobrar de volume (uns 30 minutos). Abaixe a massa e transfira-a para uma superfície polvilhada e amasse até ficar lisa e elástica (leva uns 10 minutos). Como é difícil encontrar uma forma com o formato de abelha, sugiro transferir a massa para uma forma redonda (e pensar que a abelha deu uma engordada!), untada e enfarinhada e deixá-la crescer por uns 30 minutos. Antes de colocá-la no forno pincele com a gema batida com o mel e depois asse por 30 minutos. Ah, durante o processo, pense em coisas boas, criativas, doces como saúde, amor, trabalho, delicadeza, humanismo, ternura, compaixão... pois como já disse, o pão é mágico e a abelha; mais ainda!

"La vida judía en Sefarad"


"Bolo não cresce se você não agradece", por Marcia Frazão


Bolo não cresce se você não agradece -, Jaqueline costumava dizer quando me via batendo uma receita de bolo. Acostumada com suas esquisitices, eu fingia não ouvir e continuava o trabalho. Afinal, os meus bolos cresciam satisfatoriamente e havia tão poucas coisas a agradecer que se eu levasse o conselho a sério, estaria limitada a poucos bolos. Com Jaqueline, eu pensava, não era diferente; sua vida estava mais para um mar de espinhos que de rosas. Conhecera o sofrimento de perto, de tão perto que o danado tomou-se de amores por ela. Romance sofrido, velado pelas granadas nazistas que pipocavam nos quintais de sua infância, pelas infiltrações no quartinho úmido de sua juventude em Londres, por um casamento "desgostoso", como ela mesma dizia, e por uma velhice sustentada pelas aulas particulares de francês para alunos que aprendiam tão rápido (ela inventara um misterioso método) que em pouco tempo dispensavam as aulas. O engraçado é que com quase nada para agradecer, ela agradecia. E seus bolos cresciam bem mais que os meus. Eram enormes, fofos por dentro e involucrados por uma fina crosta dourada que dissolvia na boca e dourava o coração. Às vezes ela batia palmas no portão pela manhã, trazendo-me uma fatia embrulhada. Um cadeaux dourado, por vezes decorado e recheado. Chegava sempre exatamente no instante em que os obstáculos da vida ou a desilusão do viver enodoavam meu coração de ferrugem. - Você não agradece, mas agradeço por você e o bolo cresce -, ela me dizia indiferente ao meu olhar trotskista. Não, não seria eu que agradeceria por tudo aquilo que a vida me roubara, pelas humilhações, pelos bolsos sempre vazios, pelos ultrajes, pela má fé dos outros a interferir no sustento de minha família, e nem pelas noites insones à procura de soluções. Eu acreditava na revolução trotskista e, como Frida Kahlo, vislumbrava um mundo livre de opressões, onde não haveria espaço para a exploração do homem pelo próprio homem e para negociatas corruptas, injustiças sociais e empobrecimento da arte. Jaqueline sorria ao testemunhar meu coração rebelde e ,invariavelmente, dizia: - Coma o bolo porque existem dores que nenhuma revolução trotskista resolve. Sua amiga, Kahlo, soube muito bem disso. O tempo passou, a revolução não aconteceu, o esqueleto de Frida Kahlo virou pó e meus bolos continuaram a crescer satisfatoriamente, enquanto os de Jaqueline, agradecidos pelas dádivas que só ela via, agigantavam-se nas formas. Talvez pelo fracasso da revolução ou pela constatação de que somente a dor é socialista, deixei de perguntar a Jaqueline pelos motivos dos agradecimentos e me conformei com os bolos que eu fazia, sempre menores que os dela. Quando Jaqueline atendeu a solicitação de Deus e me vi só, sem nenhuma concorrência para os meus bolos, acrescentei um item a mais em minha lista de desilusões. Não, não seria eu a agradecer pela minha alma vazia, pelo buraco que sua partida cavara em meu coração, pelo portão mudo de palmas. Não, se Jaqueline pensava que sua falta me faria agradecer, ela que se contentasse com bolos satisfatoriamente crescidos! Algumas semanas se passaram até que pela saudade a dilacerar meu peito ou pela tênue esperança de que o aroma a trouxesse de volta, eu resolvi fazer o bolo que ela mais gostava, o bolo de chocolate com queijo. Logo que comecei a bater a massa, eu me vi inundada por uma avalanche de lembranças que estranhamente adocicavam o meu coração, retirando todo o amargor que nele condensava como um tumor. Já não havia espaço para reclamações, desgostos com Deus, ou para a incômoda sensação de ter sido esquecida por Ele; havia somente o desfile das boas lembranças dos instantes em que eu e Jaqueline trocávamos receitas e livros, tomávamos café, alimentávamos sonhos, confidenciávamos segredos, chorávamos pelos projetos não realizados, ríamos dos mesmos projetos alguns anos depois, ouvíamos música, criticávamos desafetos e exaltávamos amigos. Naquele instante em que a colher de pau formava as espirais na massa guardava-se a história de duas mulheres que sonhavam o mundo entre pitadas de sal e colheres de fermento. Agradeci do fundo do meu coração por esses momentos e pela dádiva de ter tido uma verdadeira amiga. O bolo cresceu de maneira espantosa e dentro de mim ouvi outra vez a voz de Jaqueline: - Eu não disse que o bolo cresce quando se agradece!. Desde então tenho reservado aos bolos os meus agradecimentos por tudo o que a vida tem me dado. E quando a desilusão e o amargor querem invadir minha alma, lembro de Che Guevara a dizer: "Há que endurecer, mas sem perder a ternura". Dentro de mim ecoa o riso franco de Jaqueline, enquanto ela me diz que descobriu na cozinha de Deus que Guevara é um grande cozinheiro!

Marcia Frazão

obs: este texto foi extraído de meu livro "A Cozinha Mágica de Marcia Frazão", editado pela Ediouro. A receita do Bolo de Chocolate está lá.

2007-12-25

"Natal", por João César das Neves


Natal 20 | 12 | 2007 09.00H

O Natal é uma canseira, uma despesa, uma trapalhada. Perder imenso tempo a fazer doces e decorações, gastar um dinheirão em presentes e jantares, suportar a confusão dos cartões de boas-festas e das refeições de família. Estes dias nem se consegue ler o Destak em paz, porque é Natal.
É assim desde o princípio. A canseira que não foi para a Senhora, grávida de mais de oito meses, fazer centenas de quilómetros até Belém! A despesa da viagem, do nascimento, da ida para o Egipto! A trapalhada do recenseamento, da falta de acolhimento, do estábulo! Para não falar na confusão das visitas dos pastores, dos magos e, pior, dos soldados de Herodes. Acima de tudo, canseira, despesa e trapalhada estão mesmo no centro do mistério supremo que nos leva ainda hoje a celebrar o Natal. Porque o Deus sublime quis vir através dos céus nascer como um bebé. Porque o Senhor do universo dissipou toda a sua glória, escondendo-a naquele estábulo. Porque Ele sabia que os homens não o reconheceriam e iriam desprezá-lo e tentar matá-lo, até conseguirem.
O Natal só existe porque o Verbo de Deus quis suportar uma enorme canseira, despesa e trapalhada pela nossa salvação. Por isso hoje, quando corremos, gastamos e sofremos por causa do Natal, ao menos lembremo-nos do que Ele e sua Mãe correram, gastaram sofreram. Por nós. Participar no Natal é amar o próximo, mudar de vida, entrar no amor. Mas se não o fizermos, mesmo que não o queiramos fazer, ao menos participamos no Natal repetindo a canseira, despesa e trapalhada que foi desde o princípio. Feliz Natal!
João César das Neves

Desejos de Natal (Confraria Aquiliniana)


Desejos de Natal (Nuno Rebocho)


No epicentro do sonho me concentro

com o sentimento sustentado

de quem parte por querer partir

mesmo não chegando a nenhum lado.


Não há aventura

sem loucura e sem ternura

- é a viagem que importa

o resto é letra morta.


Praia, Cabo Verde, Dezembro 2007


Nuno Rebocho


Com desejos de bom Natal e melhor 2008

Desejos de Natal


À Kernel e à equipa

Desejos de Natal


"Vaguear pelas ruas, durante o Natal, é muito especial . As montras, os sítios, as janelas e as casas já estão enfeitadas e as luzes piscam ao seu ritmo na noite prematura. O piscar das luzes lembra a Felicidade... que aparece sempre aos bocados, em momentos, intermitentes... aparece e vai... volta e desaparece como as luzes de Natal. Quando se apagam por segundos, esperamos que acendam e ficamos naquela expectativa ingénua de as ver acender outra vez... como os momentos de Felicidade. É assim a nossa Felicidade, uma gambiarra de vida em cadeia que pisca, que vai e vem, que acende e apaga, que ofusca e escurece, mas que quando está, é linda, é admirável e só podemos aproveitá-la sem limites..."

Que o vosso Natal seja um momento de especial Felicidade são os meus desejos e de toda a minha família.
J J J J J J FELIZ NATAL ! ! ! J J J J J J

Ao Carlos Almeida

2007-12-23

Desejos de Natal



Feliz Natal
Mário

AO MILAGRE DA NOITE

Aqui e agora, que noite canora,
que lúcida aurora, celeste coral!

Além, acolá (em Belém de Judá)
que estrela sonora,
abóbada fora,
designada não sei que estrada real?!

Que flauta aflora
o santo curral?

É d'ouro esta hora:
- É Noite de Natal!

Rodrigo Emílio

in, PEQUENO PRESÉPIO DE NATAL, p.159
Antília Editora
Ao Mário J. Casa Nova Martins e a todos

Desejos de Natal


Ao Pedro Aguiar Pinto

Desejos de Natal

Ao Fernando Figueiredo

Desejos de Natal


2007-12-22

Ilustrações do conto "Iruchi-Ko", de Celestino Gomes, por João Carlos, no blogue "presença"


Para ver as ilustrações, carregue aqui.

"Auto-estrada: percurso de um homem livre", de Júlio Allen Vidal, na Poetria (Porto)


Caros clientes e amigos, pedimos a vossa especial ATENÇÃO:

Vai ser lançado em breve o livro de poemas "Auto-estrada: percurso de um
homem livre", de Júlio Alberto Allen Vidal. Nascido em 1955, oriundo de uma
família da alta burguesia, começou a escrever em 1970, fez vindimas em
França, foi pastor de cabras na Galiza, servente de trolha e de pedreiro em
Luanda, vendeu livros, electrodomésticos e enciclopédias, para sobreviver
ao flagelo da toxico-dependência e sem qualquer apoio da família.

O mais importante nesta poesia foi o que o seu autor conseguiu fazer com ela
a nível pessoal: escapar a um destino ainda mais trágico, salvar o corpo de
uma morte anunciada e o espírito de um abismo sem retorno.

O que sentimos neste livro é antes de mais uma grande e pura autenticidade.
Mas também reflecte a sua força interior com que, ao longo de uma vida
marcada por muitos desesperos e solidões, e apoiado por uma inabalável fé
divina, soube preservar valores fundamentais como a capacidade de perdoar, o
respeito pelo próximo e o repúdio por todas as injustiças.

Pouco importa que alguns não lhe chamem poesia, se o Júlio Alberto Allen
Vidal a interpretou como tal e sobretudo dela se serviu para resistir à
auto-destruição, à dor e ao sofrimento.

Tem mais de cinquenta livros na prateleira e é o seu primeiro livro editado.
É o sonho de uma vida que a editora "Literatura em movimento" ajudou
corajosamente a realizar e a quem o autor agradece por "não esperar pela
minha morte para lhe dar actualidade".
Tem uma tiragem de 1000 exemplares, 195 páginas e custa 20,00 € dos quais
3,00 revertem para o autor.

Os livros encontram-se na Livraria Poetria, e se pretenderem adquiri-lo
poderão fazer desde já a sua reserva por esta via. Também poderemos enviá-lo
à cobrança para o endereço que nos for indicado.

Aproveitamos para formular os nossos sinceros votos de um Natal cheio de
felicidade e poesia e que 2008 seja o ano da concretização de todos os
vossos sonhos e projectos.


POETRIA

2007-12-20

"São Bernardo", com João César das Neves


Paróquia de Nossa Senhora do Carmo

e Centro Cultural de Lisboa Pedro Hispano

Os Grandes Santos
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Dia 20 de Dezembro, Quinta-feira, 21.30

São Bernardo

com
João César das Neves

No Salão Paroquial

(esquina da Av. Maria Helena Vieira da Silva com a R. Raul Mesnier du Ponsard)
Metro da "Quinta das Conchas"

São Bernardo tem uma história impressionante e de enorme actualidade. Um jovem que descobriu que acreditar em Deus implicava um "tudo ou nada", entrou no Mosteiro de Cister com mais de 30 amigos e parentes que ele conseguiu atrair, tornou-se o grande impulsionador da difusão da Reforma de Cister, de onde vieram dezenas de Mosteiros (por ex. Alcobaça). Grande Místico, com meditações de uma profundidade ímpar, mas muito realista e consciente da importância duma organização social e política cristã, e da existência duma Europa chamada a defender a fé Católica.

Nestes dias antes do Natal conhecer este Santo é escolher a sua companhia para viver bem estes dias

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Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem – tu ouviste – mas do Espírito Santo. O Anjo espera a tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos a tua palavra de misericórdia.


Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno, mas caímos na morte; com uma breve resposta tua seremos recriados e novamente chamados à vida.


Ó Virgem cheia de bondade, o pobre Adão, expulso do paraíso com a sua mísera descendência, implora a tua resposta; Abraão a implora, David a implora. Os outros patriarcas, teus antepassados, que também habitam a região da sombra da morte, suplicam esta resposta. O mundo inteiro a espera, prostrado a teus pés.


E não é sem razão, pois de tua palavra depende o alívio dos infelizes, a redenção dos cativos, a liberdade dos condenados, enfim, a salvação de todos os filhos de Adão, de toda a tua raça.


Apressa-te, ó Virgem, em dar a tua resposta; responde sem demora ao Anjo, ou melhor, responde ao Senhor por meio do Anjo. Pronuncia uma palavra e recebe a Palavra; profere a tua palavra e concebe a Palavra de Deus; diz uma palavra passageira e abraça a Palavra eterna.

Por que demoras? Por que hesitas? Crê, consente, recebe. Que tua humildade se encha de coragem, tua modéstia, de confiança. De modo algum convém que tua simplicidade virginal esqueça a prudência. Neste encontro único, porém, Virgem prudente, não temas a presunção. Pois, se tua modéstia no silêncio foi agradável a Deus, mais necessário é agora mostrar tua piedade pela palavra.


Abre, ó Virgem santa, o teu coração à fé, os teus lábios ao consentimento, o teu seio ao Criador. Eis que o Desejado de todas as nações bate à tua porta. Ah! Se tardas e Ele passa, começarás novamente a procurar com lágrimas Aquele que teu coração ama! Levanta-te, corre, abre. Levanta-te pela fé, corre pela entrega a Deus, abre pelo consentimento. Eis aqui, diz a Virgem, a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38).


(Das Homilias em louvor da Virgem Mãe, Hom. 4,8-9: Opera omnia, Edit. Cisterc. 4, [1966], 53-54)

São Bernardo
Abade e doutor da Igreja, séc. XII



--
Padre Duarte da Cunha
Igreja de Nossa Senhora do Carmo
Av. Maria Helena Vieira da Silva 12 Ig

Sim! Amen! Aleluia! Vem Senhor Jesus

2007-12-19

"Traços de distorção na poesia de José Régio", de António Manuel Ferreira, no blogue "presença"


Para ler o artigo, prima aqui.

de repente

de repente uma estrela vem-te à mão
e do fogo larvar só matéria purulenta
inundando o verde frasco a gaveta
afundada no fundo estômago. eis-te,
pouco mais que fungo pesando longe
fora do tempo como inexistência breve.

de repente nem de ti uma imagem
ou sopro injectado no fígado acossado.

2007-12-17

" A fraude - carta de Natal escolar", in "Público", de 16 de Dezembro de 2007

Sem muitas palavras, eis um texto deliciosamente claro, que subscrevo. Agradeço ao JCosta o lembrete.

O ensino não vai bem e dele não se esperam melhorias. Dos resultados, o melhor é dizer que, se, em geral, não são francamente baixos, é porque são confeccionados. Um pequeno grão de uma longa fraude. A mentira é o sintoma do sistema. E começa na cúpula.
Para chegar a esta conclusão, não tomei muitas notas nem delineei a estrutura de qualquer tratado: constata-se. Todos o sabem, embora não esteja nos livros. O espectáculo, bem montado, vincula-nos (quando não nos premeia) a todos, professores, pais, alunos: celebramos, é certo, o mais infeliz dos papéis, que é o de bobos estultos.
Actualmente, um estabelecimento de ensino - em geral, público - é um lugar desconfortável. Os docentes, à falta de melhor, destilam fel; os alunos, feita a ressalva devida, são rudes; os auxiliares vivem o ingrato dilema de vigiar professores e ser desautorizados por alunos. E o caos só não escandaliza porque é tacitamente aceite. Ninguém leva a mão à boca de espanto, pois já ninguém estranha.
Acresce que domínios curriculares como Formação Cívica (a bem dizer, uma obrigação de família), Estudo Acompanhado (na verdade, um pressuposto do estudo, que é nem mais do que verificar uma matéria) ou Área de Projecto (entenda-se trabalhos em grupo sob mote), cujo sentido talvez fosse possível admitir numa fase inicial da escolaridade (e, ainda assim, diluídos nas disciplinas vigentes de 1.º Ciclo - ler, escrever e contar continuam a ser objectivos - e tanto faz que se leia competências - essenciais), não passam de folclore dessa farsa a que se convencionou chamar reorganização curricular e gestão flexível do currículo. Não será preciso ter dois dedos de testa para perceber que as turmas de 1.º, 2.º e 3.º ciclos do Ensino Básico não comportam mais de 15 alunos (número arbitrário, mas razoável, a atender ao perfil do modelo actual de aluno).
A destituição do poder a que os professores têm sido sujeitos gerou um paradigma comportamental profundamente enraizado nos discentes, a transcender a ética humana: banalização do estudo, privando-o de importância e solenidade; incumprimento de tarefas; transformação da aprendizagem em divertimento ou entretenimento fútil; infantilização; boicote do sistema de ensino; desvalorização do esforço e sacrifício; iliteracia; desregramento, desrespeito e imbecilidade.
Recordo duas gratas figuras a quem ouvi chamar algumas coisas pelos nomes: Marçal Grilo e Lobo Antunes. Este último, se bem me lembro, aconselhava a que se tratasse os alunos como cães (entenda-se a metáfora, sem precipitações). Não acredito num ensino em que um professor não tenha, muitas vezes, de ser austero, e um aluno, não raro, de ser espartano. Por isso me espanta que o que dimana do Ministério da Educação contrarie tudo isto: erradicação da importância da Filosofia, rasura da literatura, despenalização das faltas, elaboração de planos redentores (Plano de Recuperação, de Acompanhamento, da Matemática, etc.), criação de inúmeras fraldas pedagógicas, elaboração de exames manifestamente caricaturais, invenção de "aulas" substitutas, e tanto mais. Os fautores do ministério não são incompetentes: são, antes, irreais. E irracionais.
Na sua nefasta acção, ajudam o aluno a ser esmoler e a pedinchar notas, convencem os encarregados de Educação a reivindicar o irrazoável e a encarnar um largo espectro de qualidades diabólicas e boçais e obrigam os professores a capitular na sua missão - se é ainda possível imaginar que o ensino assim tenha sido alguma vez considerado.
Nem tudo é deste modo, mas muito do que sabemos é-o. Vemos, ouvimos e lemos: não podemos ignorar. Contudo, este silêncio é de ouro, e nem sequer os sindicatos perturbam as boas consciências (as greves de sexta sucedem-se como a expressão de um mundo sinistramente repetitivo). (...) Não nos rebelando contra o sistema - o que exigiria, no mínimo, uma paralisação de todos os sectores de ensino por tempo indeterminado -, só nos resta sermos as chocas da arena morna em que pactuamos. E a haver desculpa, só a de não darmos por nada.
Para coroar o fracasso deste modelo de ensino, a recente alteração no estatuto, que prevê a "titularidade" dos docentes, e a proposta de modificação na gestão, que antevê a figura do "director", têm um duplo imperativo: fazer dos professores galos de combate e amplificar a divisão no seio da docência. Nada mais hábil, vindo da parte da classe política, a quem só resta limpar as mãos, já lavadas por inúmeros Pilatos. O que se adivinha, contudo, não se revela muito animador para o futuro da Educação em Portugal.
A actual ministra, entretanto, balanceia-se entre uma rigorosa verve e uma logorreia falsa. Não é dela a culpa: muitos outros vieram antes e indicaram-lhe o caminho. Ela só teve de caminhar.
Nota - Ficou a jeito esta minha cabeça. Se ela rolasse, não seria sinal de ser incómoda. Seria antes a prova de que o Big Brother não é ficção literária.
António Jacinto Pascoal (professor)
Escola Secundária Fernando Assis Pacheco, Lisboa

"Planeta Terror" de Robert Rodriguez


2007-12-16

"Saramago - Eu-próprio, o Outro?" de Francisco Maciel Silveira

Eis o "Suplemento 1" da revista forma breve. A coordenação da colecção é de António Manuel Ferreira, Professor Associado com Agregação na Universidade de Aveiro, e o presente título, que inaugura a colecção, é da responsabilidade de Francisco Manuel Silveira, Professor Catedrático de Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo.

2007-12-13

Representações de Portugal na Literatura Portuguesa (7 décadas de história)



“A imagem era um enigma que sorria”
(Fiama Hasse Pais Brandão, “Peregrinação e catábase”, in Obra Breve)


Recriando a literatura mundos através da modelização de uma semiótica denotati-va, isto é, de uma língua natural, não espanta que esse trabalho sobre o sistema modelizante primário estruture as “coisas do mundo circundante” (Miguel Serras Pereira), instalando uma particular ligação entre nós e o fora-de-nós. A palavra literária é, assim, imagem, representação e “aparição”.
Recuperando os ecos do inframundo e a conexão com a ave da poesia, a editora Averno acaba de editar (Agosto de 2007) Novas Memórias de Ansiães, um pequeno e arrebatador objecto literário de A. M. Pires Cabral, Manuel de Freitas, Vítor Nogueira e Rui Pires Cabral, complementado com magníficas ilustrações de Luís Manuel Gaspar. Antes do texto, é uma desfilada de imagens que se desvela e uma história acontecida que mais ou menos assim se conta, por ter havido uma antiga vila de Ansiães, sede de concelho e com foral desde 1075, no alto de uma colina plantada, perto da aldeia de Lavadeira, que hoje lamenta, na frieza das suas ruínas, a perda da glória, depois de ter visto confirmado o estatuto de vila, por alvará de D. João V, datado de 6 de Abril de 1734, e assistido, já no século XIX, à deslocalização da sede concelhia de Ansiães para Carrazeda, abrindo-se o lugar a uma letárgica epidemia de silêncio que a literatura aborda poliedricamente, reflectindo na sua pluricodificação uma “informação” altamente concentrada e privilegiada, revelando-se, no caso, o vigor das “línguas literárias” como fundante “instrumento de cognição do homem, da sociedade e do mundo” (Aguiar e Silva). Acontece neste caso e em todas as lacerações.
Assim, o poema “No castelo de Ansiães” de A. M. Pires Cabral, ao defender que “a história não é uma serpente / que se refaz em cada primavera, / mas quando muito morde a própria cauda”, revela um velho Portugal “dissolvido no ácido dos dias” e escondido “por silvas e aveia brava”. Conformado e anticonformista, a um tempo, diz o Poeta que os horizontes “permanecem os mesmos” e, em fecho vital e actuante sobre o leitor, lança a interrogação que importa a respeito do país que temos: “porquê esta água insubmissa / que devagar me molha o reverso dos olhos?”
Em linha paralela segue Manuel de Freitas, em “Ruínas de Ansiães e Carrazeda”, resultando do cotejo poético uma importante conclusão medial:

Mas são esses – os de Carrazeda, a nova –
os túmulos vivos que nos restam:
cafés apinhados, lojas que se esqueceram de fechar,
a vasta e inacreditável quinquilharia que
faz da Papelaria Horizonte um exemplo de sucesso.
Penhores, dispersos, de algo que nunca existiu.

Um país, garantem-nos. Mas Ansiães, a velha,
nasceu antes da nacionalidade, embora
a tenha acompanhado o melhor que pôde.
Parecem demasiado perfeitas, estas ruínas,
demasiado diferentes daquela que será um dia
a nossa.

Inferidos os dois “diferentes” países, há um belo desencanto poético nisso, porque as “cidades, já se sabe, também morrem”, como, afinal, jaz um Portugal “enkitschado” e acedioso, longe mesmo da histórica perfeição inscrita nas ruínas.
Vítor Nogueira, no poema “Comércio tradicional”, festeja a posse da velha Ansiães, permitindo-se o óbvio translato metonímico de um Portugal desapossado, desesperadamente em queda: “A tarde / em que, lutando com abelhas, tomámos posse / do improvável Castelo de Ansiães.”
Por último, deixam-nos estas Novas Memórias de Ansiães com uma composição poética de Rui Pires Cabral, intitulada “Outro castelo”. Nela, o escritor expressa a dor da revisitação e espanta-se “que aquela beleza inteira / pudesse ter persistido / na sua alterada solidão”. Tal inquietação pela permanência e pela mesmidade dimana da desordem e do tumulto em que o sujeito caiu, longe que o meio o pôs da segurança pacificadora. Resta agora o “espectro de outro castelo / ao qual não é possível regressar.”
Em 2006, na contiguidade de uma poesia acontecendo “ao correr do tempo todo”, Fiama Hasse Pais Brandão, num dos vários inéditos apostos a Obra Breve, de título “Foz do Tejo, um País” e incluído na divisória “as Poéticas”, alude ao carácter marítimo de “um país que fala dentro da fronte, / olhando as naus, navios, barcos pesqueiros / e os trilhos das famintas aves pintoras”, criando no explicit poemático, em estrofe de fulminante beleza, uma das mais certeiras representações literárias de Portugal:
É uma nação única de memórias do mar,
que não responde senão em nós. Glórias, misérias,
que guardámos por detrás do olhar lírico
e da língua, a silabar dentro da boca.
Nunca chamámos o mar nem ele nos chama
mas está-nos no plano como estigma.


Como o afirma Gastão Cruz a Jorge Maffei, Rua de Portugal, obra do poeta algarvio publicada em 2002, é uma colectânea poética na qual o escritor tentou “encontrar uma espécie de disciplina realista”, tentando “fazer poemas sobre coisas, sobre lugares, coisas mais concretas, menos abstractas”. Aumentando avidamente o tempo, lendo os lábios “o texto acendido”, eis que “Já não existe a casa / vinte o / número / da trémula muralha térrea / defensora / duma pátria começando / quase sem luz”. Do ninho do poeta à pátria do artista é a mudança e a decepção pela fantástica perda que tomam o espaço biográfico individual e o fazem analogia de um país agónico, soçobrante.
Integrando realidades culturais e históricas planetárias através de incisões emocionais muito próprias, António Franco Alexandre, ao manifestar-se assim sem prioridade portuguesa, não descura tal situação, permitindo-se algumas “evidências” impressionantes, como a que acontece no poema 17 das “Terceiras Moradas”, um inédito de 1994, que viria a fazer parte de Poemas (1996): “somos um país pequeno, andamos / amarfanhados com a dimensão da boca, aonde não cabe / um peixe.” Já antes, em Oásis de 1992, deixara Franco Alexandre uma singularidade apreciativa sobre a sua terra, imagem do seu país: “para que a voz se deite no lençol e olhando // veja a pequena terra em que nasci / o sossego das grandes chuvas desabando no pátio e o respirar da casa / o rosto de minha mãe”.
Em 1982, faz publicar Mário Cláudio Terra Sigillata, livro poético fabuloso, com um poema de abertura, de título “Primeiras Escavações”, com uma alusão inicial ao país rural que é antológica imagem de um certo Portugal:
Um zumbido, este país te enlouquece.
Penetras pelos muros de pedra solta, atravessas a
aldeia de casas quase todas
brancas, uma só vermelha,
extensíssima.
As velhas apartam as espigas, com duas pombas a
seus pés. As mães fazem
tinir as agulhas da malha ra-
pidíssima. As crianças cor-
rem trigueiras e em gritos,
minúsculas bruxas.

Aliás, a breve admonição logo subsequente (“Descobrir esta terra, descrevê-la, será usar a cama de / novo”) mostra que as imagens irrompidas da forja criadora são iluminações sobre os “sinais da terra”. Escavando, o Poeta inscreve nestas “Primeiras Escavações” lápide não negligenciável sobre o Porto, um certo Porto com uma auréola de “camélias maceradas”, terno e espectral, pertença de uma “sigillata terra” decifrada pelo peso das “nossas rugas”.
Espantosamente perto da perfeição, também Al Berto (e recupero o atrás dito sobre Fiama), uns anos antes, em 1977, deixa no “atrium” de Á Procura do Vento num Jardim d’ Agosto uma interessante nota do dissídio íntimo vivenciado pelo sujeito poético associada a uma certa imagem do país construída por traço unitivo marítimo: “hoje abri novamente a janela onde sempre me debruço e escrevi: aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. Invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar…”. Sem euforia no caso, antes se notando o oposto, uma nota mais alarmada, desesperada mesmo, se colhe em Uma Existência de Papel, de 1985, facilmente se intuindo haver um país adverso para os poetas: “escuta / a partir de hoje abandono-te para sempre / ao silêncio de quem escreve versos / em Portugal / tens trinta e sete anos como Rimbaud / talvez seja tempo de começares a morrer”.
Eugénio de Andrade, ao publicar, em 1974, Escrita da Terra, trouxe para o palco da literatura uma colectânea poética onde pontuam inúmeros espaços de eleição do poeta, com claras ligações ao país espacejado – títulos como “Rua Duque de Palmela, 111”, “Monfortinho”, “Peniche” (“há só vento no meu país”), “Tavira 1944”, “Jardim de S. Lázaro”, “Castelo Branco”, “Cabedelo”, “Dunas de Fão”, “Foz do Douro”, “Sul”, “Povoa de Atalaia”, “Campos de Atalaia”, “Lisboa”, “Sesimbra”, “Arredores de Beja”, “Alentejo”, “Moledo do Minho”, “Amanhecer em Estremoz”, “Nordeste”, “Vale do Ceira”, “Fão”, “No Cemitério da Lapa”, “Os Girassóis do Alvor” e “Cacela” permitem uma construção subjectiva de Portugal e a leitura integral dos poemas, aqui desnecessária, faculta encontro com o país reflectido por um “olhar trabalhado pelo lume”. Ainda nesse mesmo ano, vem a lume Homenagens e Outros Epitáfios, livro em que Eugénio de Andrade celebra um conjunto de figuras gradas da cultura nacional e internacional. Não se exime aí o poeta, na composição “A Jorge de Sena, no chão da Califórnia”, a lançar curta e contundente seta sobre a pequenez moral do país, bem diferente da representação do Portugal simples de “A Pequena Pátria” de Os Lugares do Lume (1998): “Escreveste como o sangue canta: / de-ses-pe-ra-da-men-te, / e mostraste como não é fácil / neste país exíguo ser-se breve.” Quase duas décadas depois, em “Mulheres de Preto” de Rente ao Dizer (1992), fixará Eugénio de Andrade uma interessantíssima representação da mulher rural portuguesa, que é ainda claro emblema de um certo país resistente e empírico:
Há muito que são velhas, vestidas
de preto até à alma.
Contra o muro
defendem-se do sol de pedra;
ao lume
furtam-se ao frio do mundo.
Ainda têm nome? Ninguém
pergunta, ninguém responde.
A língua, pedra também.

Acresce ainda que Eugénio de Andrade é um dos mais laboriosos conformadores da canónica representação literária do país ao elaborar competentes antologias sobre espaços territoriais assinalados. Lembrem-se, por exemplo, títulos como Daqui Houve Nome Portugal (1968), Memórias de Alegria (1971), Alentejo não tem Sombra (1982) A Cidade de Garrett (1993) ou Alentejo (1993).
Ruy Belo, em Boca Bilingue (1966), inicia a titulação “Portugal Sacroprofano”, que se continua em Homem de Palavra[s] (1970), permitindo-nos representações do Mercado dos Santos, em Nisa, e de Vila do Conde, por exemplo, bem como importantes confidências poéticas sobre a percepção do tempo (“O tempo é outro tempo nas terras pequenas / e quem de si mesmo afinal foge encontra aqui o coração em festa”) e directas denúncias sobre o estado da nação (“Neste país sem olhos e sem boca // Neste país do espaço raso do silêncio e solidão / solidão da vidraça solidão da chuva” e “O lugar onde o coração se esconde”). Esperançado, no entanto, projecta-se o poeta para o futuro, em “O Portugal futuro”, dizendo o sujeito poético que “O Portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível”. Ou então, em exílio produtivo, pode o escritor, como o vai dizendo em País Possível (1973), fugir ao desgaste do país castrador através do arejamento espacial (“Enche-se o peito de ar noutros países / onde fora de nós em nós buscamos Portugal / longe do desgastante dia-a-dia português”), não denegando mesmo um certo e gratulatório desenraizamento longe da Heimat, até porque o poeta assume em “Peregrino e hóspede sobre a terra”: “Meu único país é sempre onde estou bem // Sou donde estou e só sou português / por ter em portugal olhado a luz pela primeira vez”. Mais tarde, em Toda a Terra (1976), exclamará um desalentado poeta: “Aqui neste país nesta rosa divina que me elimina pétala a pétala / ninguém já me julga eu já sou somente quem fui / e sou este país onde eu era já antes mesmo de ser”.
Há, na mesma década de 60 do século XX, uma Feira Cabisbaixa (1965) de Alexandre O’Neill que é não apenas um grande conseguimento poético como é, em simultâneo, um objecto artístico denunciante e multímodo de imagens e sugestões sobre o Portugal de então. Mas, pensando melhor, esta “feira cabisbaixa” não cessa de acabar. Poemas como “Portugal” (“Ó Portugal, se fosses só três sílabas, / linda vista para o mar, // se fosses só o sal, o sol, o sul, // Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, / meu remorso, / meu remorso de todos nós”), “O País Relativo” (“País por conhecer, por escrever, por ler… // País do cibinho mastigado / devagarinho. // País amador do rapapé, / do meter butes e do parlapié, / que se espaneja, cobertas as miúdas, / e as desleixa quando já ventrudas. // País pobrete e nada alegrete, baú fechado com um aloquete”) ou “Made in Portugal” (“Peixe sem solução, / máquina a parar, / circular e vítrea aflição / a olhar.”) são criações que riem, “num Portugal a entristecer que era o do Estado Novo”, como o diz Maria Antónia Oliveira.
Um pouco antes, o mesmo O’ Neill, por 1958, no livro No Reino da Dinamarca, já se despedira da pátria no poema “Um Adeus Português”, vituperando a falta de futuro e o incrível pântano que era o país: “à roda a que apodreço / apodrecemos / a esta pata ensanguentada que vacila / quase medita / e avança mugindo pelo túnel / de uma velha dor // esta roda de náusea em que giramos / até à idiotia / esta pequena morte / e o seu minucioso e porco ritual / esta nossa razão absurda de ser”.
Voltando a 1965, lembre-se a reconhecida Praça da Canção de Manuel Alegre, onde se colhem, por exemplo, uns “ventos tristes” e um “país amado”, bem como o desânimo pelo não achamento do país (“só mau país não achei”). Um outro poema do mesmo livro, “País de Abril”, permite mesmo uma representação de um país devastado e cinzento: “ – minha pátria vestida de viúva / entre as grades e a chuva das cidades”, “- minha pátria perfil de mágoas e tabernas”, “- minha pátria bordada de farrapos / capa de trapos remendada a verdes folhas”, “- minha pátria a rir como quem chora / (A festa da tristeza é tudo o que lhe resta)”… Um pouco à frente, o poeta falará de “uma pátria parada / à beira de um rio triste”. Em O Canto e as Armas, de 1967, Alegre mostrará ainda um país triste (“Minha pátria sem nada / sem nada / despejada nas ruas de Paris”), um “país de lágrimas e aldeias”, “pátria sem pão / de país em país”. Definindo poeticamente o país no poema “Portugal”, em Chegar Aqui de 1984, Manuel Alegre, sem atingir possivelmente a fulgurância de Fiama e Al Berto, dá uma imagem afim ao dizer: “O teu destino é nunca haver chegada / O teu destino é outra índia e outro mar / E a nova nau lusíada apontada / A um país que só há no verbo achar”.
É o artefacto literário um específico objecto que, fundindo em si, para lá da óbvia dimensão estética, vertentes socioculturais e históricas, facilmente dissemina ilusões e imagens que se constituem em detalhes importantes, de acordo com a subjectividade criativa. É um esquecidíssimo José de Esaguy, nos seus Versos de 1953, quem vem a manifestar, em reacção amorosa e referindo-se à nossa capital, um dos lugares desalentados mais fulgurantes da literatura portuguesa da segunda metade do século XX: “Lisboa / … / Já não me atrai / E não me chama”.
Em 1947, publica a Seara Nova o título Ossadas de Afonso Duarte, aí se recolhendo poemas publicadas em revistas entre as décadas de 20 e de 40 do século XX. E é precisamente do poema “Estepa”, que se levanta um grito, dentro de uma tópica desolada que percorre muitas das imagens do país criadas pelos autores portugueses, que diz: “Desterro dos desterrados, / Meu coração é estepa delicada: / E meu cabelo neva / Sem Pátria, minha amada, / Minha Amada.” Adensando mesmo este desolamento, a “Canção da Vida” esclarece “Ah, meu eterno Portugal, meu peito, / Esta é a dor, sim a dor, de que sou feito.”, para logo à frente surgir, em tirada final, um questionamento directo ao coração: “Toda a minha mensagem, Pátria, foi contigo! / E, na terra da Pátria, sem vislumbre de erro, / Onde está, pergunto, o ancoradouro, / O meu porto de abrigo?” Resta ao Poeta uma outra via mais simbólica, que é, como acontece em “Epigrama”, identificar-se com o mar: “Há só mar no meu País. / Não há terra que dê pão: // Há só mar no meu País: / E é ele quem diz, / É ele quem sou.”
Os dez livros de poesia do “Novo Cancioneiro”, publicados entre 1940 e 1944, fornecem fulgurantes retratos de um país sofredor e estéril: lembro o poema 21 de Terra (1941) de Fernando Namora (“António, é preciso partir! / o moleiro não fia, / a terra é estéril, / a arca vazia, / o gado minga e se fina! (…) Árida, árida a vida! / António, é preciso partir! / António partiu. / E em casa, ficou tudo medonho, desamparado, vazio.”); lembro um trecho de um dos “Poemas do Cão Danado” dos Poemas (1941) de Mário Dionísio (“Eis-nos boiando, aflitos, / só as narinas e os braços fora de água, / prestes a sucumbir”); e lembro, por último, pequena parte do “Poema do Dóri” de Os Poemas de Álvaro Feijó ( “Neste país de luz e Sol, / o nevoeiro anda cá dentro / e não nos deixa olhar…”).
Não deixa de ser interessante notar que o último texto da derradeira presença, de Fevereiro de 1940, encerre a magnífica publicação com uma polémica entre Manuel Anselmo e Adolfo Casais Monteiro, afinal, acabadas imagens de diferentes representações do país digladiando-se.
“Uma poucas de palavras”, como diria Tomaz de Figueiredo, para dizer que esta abordagem é apenas seminal: de fora fica a poesia combatente de Rodrigo Emílio (“Era este um lugar / de raiz duradoura. / Mas soou a hora / de deitar país / fora…”), a poética reconfigurativa do país de José Valle de Figueiredo (“Portugal é grande, / (…) Cai, co´a alma dorida, / mas cresce e avança, sentida, / a perdida esperança.”) e toda a fecunda prosa portuguesa, não fosse eu aqui lembrar a construção de um país racista por alguns tresleitores de Vergílio Ferreira (bem como de uma pátria submersa), o país gregário de José Saramago ou o fim da utopia revolucionária político-social e a instauração da antiutopia, caracterizada pelo "desencantamento do mundo e pela desrazão", no Esplendor de Portugal de António Lobo Antunes.
Em artigo publicado na revista Ultramar, em 1941, sob o título “Uma mitologia portuguesa”, Pedro de Moura e Sá, ao referir-se mais à literatura do passado, conclui: “O homem buscou sempre nos livros uma representação, digamos, mitológica da vida, e era como criadora de mitos que a literatura atingia maior grandeza. Dos homens extraía-se qualquer coisa de essencial, que dava aos heróis dos livros um aspecto característico e exemplar.”
Poderemos nós, décadas volvidas, desejar outro tempo e melhor lugar?
(Variações, poucas, sobre a comunicação apresentada às "10ªs Jornadas Históricas de Seia" de Novembro último)