2006-10-31

fotografia de Carlos Vilas

Teologia do Corpo


Durante 5 anos, todas as Quartas-feiras, João Paulo II dedicou 129 Catequeses a explicar o Amor Humano no Plano Divino, aquilo a que chamou a "Teologia do Corpo".
Ajudando-nos a perceber o plano original de Deus para o Homem, esclarece-nos sobre o sentido último da nossa vida e como, desde já, somos chamados a ser analogia, vislumbre, antevisão da própria comunhão trinitária.
Somos feitos à "imagem e semelhança de Deus", não apenas por sermos dotados de espírito, mas principalmente, porque o nosso espírito encarna num corpo que revela e realiza a vocação para a comunhão.
Assim o nosso corpo e concretamente a nossa sexualidade, vivida no matrimónio ou no celibato, é caminho de santidade.
George Weigel diz sobre a Teologia do Corpo "trata-se de uma bomba-relógio teológica prestes a explodir ... talvez no século XXI".
Para saber mais venha assistir a esta conferência de Anastasia Northrop, Presidente da Aliança Internacional da Teologia do Corpo

queda

húmida a língua
jaz na gaveta fechada
entalada nos dedos
fundos do mar.

nua a carne
devolve a pele
e um fio de sangue
cai a pique.

a mão na palma
trespassada.

2006-10-30

fenda

um lápis rompe a pele
inscrevendo no sangue
a secura dos ossos
e o dia que acaba.

e só agora sei o céu
arterial que percorro.

feito víscera de ti
insónia sobre o corpo cai.

uma pedra dentro
que o relâmpago fende.

2006-10-28

outubro finda

outubro finda nos telhados
já sem zinco atravessados
pelos fungos e pelas frases

escuto ainda o furtivo amor
e a esquiva luz pelas janelas

o segredo que me dizes
é um corredor branco sem memória.

receita de jovialidade de Pablo Picasso

"Deita fora todos os números não essenciais à tua sobrevivência.
Isso inclui idade, peso e altura.
Deixa o médico preocupar-se com eles.
É para isso que ele é pago.
Frequenta, de preferência, amigos alegres.
Os de "baixo astral" põem-te em baixo.
Continua aprendendo...
Aprende mais sobre computador, artesanato, jardinagem, qualquer coisa.
Não deixes o teu cérebro desocupado.
Uma mente sem uso é a oficina do diabo.
E o nome do diabo é Alzheimer.
Curte coisas simples.
Ri sempre, muito e alto.
Ri até perder o fôlego.
Lágrimas acontecem.
Aguenta, sofre e segue em frente.
A única pessoa que te acompanha a vida toda és tu mesmo.
Mantém-te vivo, enquanto vives!
Rodeia-te daquilo de que gostas: família, animais,
lembranças, música, plantas, um hobby, o que for.
O teu lar é o teu refúgio.

Aproveita a tua saúde;
Se for boa, preserva-a.
Se está instável, melhora-a.
Se está abaixo desse nível, pede ajuda.
Não faças viagens de remorso.
Viaja para o Shopping, para a cidade vizinha, para um país
estrangeiro,
mas não faças viagens ao passado.
Diz a quem amas, que realmente os amas, em todas as
oportunidades.
E lembra-te sempre de que:
A vida não é medida pelo número de vezes que respiraste, mas pelos
momentos em que perdeste o fôlego:
de tanto rir...
de surpresa...
de êxtase...
de felicidade..."
"Há pessoas que transformam o Sol numa simples mancha amarela, mas

também as que fazem de
uma simples mancha amarela o próprio Sol"

Pablo Picasso [texto enviado por Jacinto Figueiredo]

2006-10-26

a força da tragédia

Mesmo seguros, uma leve força do ocaso,
um vislumbre de flor, a morte de alguém,
o coro final de Eurípides.

[Robert Browning]

2006-10-25

"Um homem para a eternidade"



JOVENS PROFISSIONAIS CATÓLICOS

EXIBIÇÃO DO FILME “UM HOMEM PARA A ETERNIDADE”


A associação Jovens Profissionais Católicos tem a honra de convidar V. Exª para a exibição do filme “Um homem para a eternidade”, seguida dos comentários do Cónego João Seabra.
Este filme, de 1966, vencedor de 20 prémios cinematográficos, ganhou 6 Óscares (actor principal, realizador, cinematografia, argumento, fotografia e guarda-roupa), com ainda 2 nomeações para actor e actriz secundários.
De imensa qualidade cinematográfica, reflectida nos inúmeros prémios ganhos, esta obra retrata a fé e fortaleza de um homem (São Tomás More), na fidelidade a Deus e à Igreja.
No século XVI, em Inglaterra, quando Henrique VIII se divorciou de Catarina de Aragão para casar com Ana Bolena, o Chanceler do Reino (Sir Tomás More) opôs-se claramente a esta decisão, pelo que foi encarcerado, julgado e decapitado, apesar da alta posição que ocupava na altura (primeiro-ministro). Com este filme, todo este processo é interpretado de forma magistral.
Pela sua heroicidade, Sir Tomás More foi proclamado santo, em 1935, pelo Papa Pio XI, sendo o padroeiro dos políticos.



Local/data: Igreja de São Nicolau (sala grande), no dia 31 de Outubro (3ª feira), pelas 21h15m
Duração: Filme (2 horas) e comentários (15 minutos)
Entrada livre

Centro Europeu de Estudos Avançados



CENTRO EUROPEU DE ESTUDOS AVANÇADOS - CEEA

O Centro Europeu de Estudos Avançados - CEEA, patrocionado pela PEDAGO, inicou a sua actividade no âmbito da formação avançada no p.p. dia 3 deOutubro, e surge para servir as necessidades de formação pós-graduada numa grande região económica e socioculturalmente identificável, cujo centro estratégico é a cidade de Viseu, até ao momento sem respostas eficazes a este nível. Colocando a exigência, a excelência e a avaliação nos melhores níveis internacionais, na base de um vasto conjunto de parcerias estabelecidas com prestigiadas Universidades do espaço europeu, o CEEA pode oferecer pós-graduações, MBA's, DBA's e doutoramentos em várias áreas científicas. Toda a responsabilidade científica, pedagógica e investigativa, incluindo a conferição dos respectivos títulos e graus académicos, pertence, exclusivamente, às Universidades parceiras. Os cursos são leccionados por um corpo docente composto, na sua maioria, por professores estrangeiros, com a participação de alguns professores portugueses, todos de reputado currículo académico de reconhecido valor científico nas respectivas áreas, a nível internacional. É o caso dos seguintes programas:

PROGRAMA DE MESTRADO OFICIAL E DE DOUTORAMENTO EM CIÊNCIAS EMPRESARIAIS, realizado em parceria com a Universidad Rey Juan Carlos, de Madrid. Este programa procura dotar o aluno de uma especialização no âmbito da empresa em geral e em particular nas suas distintas funções, nomeadamente: Direcção e Organização de Empresas, Direcção Financeira, Direcção deMarketing, Direcção e Administração, Contabilidade e Direcção de RecursosHumanos, de modo possibilitar uma actividade profissional no âmbito empresarial, assim como conhecimentos de investigação aplicada.Requisitos de Acesso: Licenciaturas afins às ciências empresariais.

PROGRAMA DE DOUTORAMENTO EM CIÊNCIAS DO TRABALHO, realizado em parceria com a Universidade de Cádiz (UCA). Este programa surge perante a necessidade de oferecer uma formação integrada que supra as actuais carências de recursos humanos, capazes de exercerem de maneira eficiente e eficaz a gestão de Serviços e de Empresas Públicas nos diferentes níveis organizacionais. Requisitos de Acesso: Quadros superiores da Administração Pública Portuguesa Central e Local, Advogados e Psicólogos bem como outros profissionais com formações afins às Ciências do Trabalho.

PROGRAMA DE MESTRADO OFICIAL E DE DOUTORAMENTO EM PSICOLOGIA DA SAÚDE, realizado em parceria com a Universidade de Elche. Pretende-se com este programa, desenvolver uma perspectiva biopsicossocial no estudo e tratamento da doença, bem como nos processos de manutenção da saúde. Requisitos de acesso: Licenciados em Enfermagem, Medicina e Psicologia bem como outras áreas afins às Ciências da Saúde.

Documentos necessários ao Concurso de Acesso: Impressos de candidatura; fotografia do candidato; Certificado deHabilitações (consultar Secretarido); C.V.; B.I.

Horário: O Curso funcionará em Mangualde, em horário pós laboral.

Período de Candidaturas/MatrículasCandidaturas - 24 de Outubro

Matrículas - 31 de Outubro

Início do CursoNovembro de 2006, em data a anunciar proximamente.

Regime de Propinas: As propinas terão preços equiparados à média nacional. Poderão serefectuados pagamentos em três momentos do ano (Novembro, Fevereiro e Junho).

Contactos e Secretariado: Dra Isabela Marques - Tel: 96 477 24 98

Email: info@centroeuropeu.nethttp://www.centroeuropeu.net/

2006-10-23

À Louise Brooks: JudithTeixeira


Louise Brooks

Sabe-se que o emancipalismo feminino, da sua génese até à quase concretização nos nossos dias, é devedor, sem sombra de dúvida, do crescendo económico ulterior à Revolução Industrial, da alteração normativa imposta à transferência dos legados patrimoniais familiares, do acesso da mulher ao sistema educativo, da reivindicação feminil que cada vez mais se instalou e do declínio acentuado da vigência do normativismo religioso. Mas isto já foi mais ou menos dito por um Georges Duby e por uma Michelle Perrot.
No caso português, parece-me indesmentível que a agitação provocada por Judith Teixeira na década de vinte - até no seu jeito artístico, de penteado à "garçonne", para gerar um imaginário de figura feminina de acordo com o vigente modelo universal à Louise Brooks -, trouxe um importante contributo libertatário para a geração de mulheres que se lhe seguiu.

No entanto, e ainda bem, Judith Teixeira consegue uma identidade própria não pelo grito sufragista de grande voga, nomeadamente no período subsequente à implantação da República, mas sim pela ostentação de uma vida espiritual e intelectual que ela sumptuariamente subscreve pela presença obsidente do seu forte e assertivo "Eu". Esse esteticismo e essa força afirmativa estão também presentes na inusual apresentação, em primícias literárias, de obras suas sob a chancela gráfica da Imprensa Libânio da Silva, que, segundo José Augusto-França, "dispunha de excelentes oficinas".

o credo de um poeta

"O meu objectivo era falar do credo do poeta mas, olhando para mim próprio, descobri que tenho um tipo de credo vacilante, nada mais. Talvez seja útil para mim, mas dificilmente o será para outros."
[Jorge Luís Borges, Este Ofício de Poeta ]

Esclarecimento de D. José Policarpo



D. José Policarpo esclarece declarações à comunicação social

.

COMUNICADO


D. JOSÉ DA CRUZ POLICARPO, CARDEAL-PATRIARCA DE LISBOA, ESCLARECE POSIÇÃO QUANTO AO ABORTO


As minhas respostas à comunicação social, que me interpelou sobre a hipótese de um novo referendo sobre o aborto, foram incorrectamente utilizadas por alguns meios de comunicação e mesmo por forças políticas e parecem ter gerado confusão e mesmo indignação em algumas pessoas. Parece-me, pois, necessário retomar as afirmações aí feitas, com uma clareza que não permita interpretações ambíguas ou desviadas.
1. Comecei por afirmar, o que parece que ninguém ouviu, que a doutrina da Igreja sobre esta matéria, não mudou e nunca mudará. De facto, desde o seu início, a Igreja condenou o aborto, porque considera que desde o primeiro momento da concepção, existe um ser humano, com toda a sua dignidade, com direito a existir e a ser protegido.
2. Afirmei, de facto, que a “condenação do aborto não é uma questão religiosa, mas de ética fundamental”. Trata-se, de facto, de um valor universal, o direito à vida, exigência da moral natural. Com esta afirmação não foi minha intenção negar a sua dimensão religiosa. A mensagem bíblica assumiu, como preceito da moral religiosa este valor universal, dando-lhe a densidade do cumprimento da vontade de Deus. Não é só por se ser católico que se é contra o aborto; basta respeitar a vida e este é, em si mesmo, um valor ético universal.
É claro que o respeito pela vida é uma exigência da moral cristã, porque está incluído no quinto mandamento da Lei de Deus: “Não matarás”. Porque é um preceito da moral cristã, violá-lo é um pecado grave. Mas o Decálogo, estabelecido, pela primeira vez no Antigo Testamento, por Moisés, consagrou como Lei do Povo de Deus, alguns dos valores humanos universais, que interpelam a consciência mesmo de quem não é religioso. E de facto, na presente circunstância, há muitos homens e mulheres que, não sendo crentes, são contra o aborto porque defendem a dignidade da vida, desde o seu início.
Se a condenação do aborto fosse só exigência da moral religiosa, os defensores do aborto poderiam argumentar, e já o fazem, que as Leis de um Estado laico não devem proteger os preceitos religiosos; basta-lhes respeitar a liberdade de consciência. De facto não lembraria a ninguém exigir de uma Lei do Estado que afirmasse, por exemplo, que os católicos têm obrigação de ir à missa ao Domingo. Se nós lutamos por uma Lei do Estado que defenda a vida humana desde o seu início é porque se trata de um valor universal, de ética natural e não apenas de um preceito da moral religiosa.
3. À pergunta se a Igreja se iria empenhar nesta campanha, comecei por clarificar o sentido em que usavam a palavra “Igreja”, se referida a todos os fiéis, se apenas aos Bispos. Isto porque, muito frequentemente, os jornalistas quando falam da Igreja se referem só aos Bispos e Sacerdotes. Esclarecida esta questão, aproveitei para exprimir aquilo que penso ser o papel complementar dos leigos e da Hierarquia numa possível campanha a preparar o referendo. Devo dizer, agora, para clarificar o meu pensamento, que essa possível campanha deveria ser, sobretudo, um período de esclarecimento das consciências. Mas porque a proposta de leis liberalizantes da prática do aborto se tornou numa causa partidária, a campanha pode cair, na linguagem e nos métodos, numa vulgar campanha política.
Fique claro que todos os membros da Igreja e todos os que defendem a vida são chamados a participar nesse debate esclarecedor das consciências. Compete aos leigos organizar e dinamizar uma campanha, no concreto da sua metodologia. O papel dos pastores é apoiar, e iluminar as consciências com a proclamação da doutrina da Igreja, anunciando o Evangelho da Vida. Aos Sacerdotes da nossa Diocese eu peço que se empenhem nesta proclamação da doutrina da Igreja sobre a vida, mas que saibam sabiamente marcar a diferença entre o seu ministério de anunciadores da verdade, e as acções de campanha, necessárias e legítimas no seu lugar próprio. Mas os leigos poderão contar com todo o nosso apoio nesta luta por uma Lei que respeite a vida.
4. Não fiz a apologia do abstencionismo. Aconselhar a abstenção não será, concerteza, a orientação dos Bispos portugueses perante um possível referendo. A questão que me foi posta é outra: e os que têm dúvidas, como deverão votar?
Esta questão da dignidade da vida humana, desde o seu início, é hoje tão clara, mesmo do ponto de vista científico, que um dos objectivos a conseguir, durante o período de debate e esclarecimento é, pelo menos, lançar a dúvida em muitos que, talvez sem terem aprofundado a questão, estão inclinados a dizer “sim” à proposta de Lei referendada. Penso sobretudo no eleitorado mais jovem. Foi-me perguntado o que aconselharia a esses que duvidavam. A minha resposta é clara: se não têm coragem de votar “não”, que pelo menos se abstenham.
5. Àqueles que interpretaram abusivamente as minhas respostas ou, porque não as entenderam, ficaram confusos, aqui fica, com clareza, o meu pensamento. Mais uma vez se aplica a frase de Jesus: “A verdade nos libertará”.


Lisboa, 19 de Outubro de 2006

† JOSÉ, Cardeal-Patriarca

2006-10-22

Razões para escolher a vida

Nota Pastoral do Conselho Permanente Conferência Episcopal Portuguesa sobre o referendo ao aborto

1. A Assembleia da República decidiu sujeitar, mais uma vez, a referendo popular o alargamento das condições legais para a interrupção voluntária da gravidez, acto vulgarmente designado por aborto voluntário. Esta proposta já foi rejeitada em referendo anterior, embora a percentagem de opiniões expressas não tivesse sido suficiente para tornar a escolha do eleitorado constitucionalmente irreversível, o que foi aproveitado pelos defensores do alargamento legal do aborto voluntário.Nós, Bispos Católicos, sentimos perplexidade acerca desta situação. Antes de mais porque acreditamos, como o fez a Igreja desde os primeiros séculos, que a vida humana, com toda a sua dignidade, existe desde o primeiro momento da concepção. Porque consideramos a vida humana um valor absoluto, a defender e a promover em todas as circunstâncias, achamos que ela não é referendável e que nenhuma lei permissiva respeita os valores éticos fundamentais acerca da Vida, o que se aplica também à Lei já aprovada. Uma hipotética vitória do “não” no próximo referendo não significa a nossa concordância com a Lei vigente.
2. Para os fiéis católicos o aborto provocado é um pecado grave porque é uma violação do 5º Mandamento da Lei de Deus, “não matarás”, e é-o mesmo quando legalmente permitido.Mas este mandamento limita-se a exprimir um valor da lei natural, fundamento de uma ética universal. O aborto não é, pois, uma questão exclusivamente da moral religiosa; ele agride valores universais de respeito pela vida. Para os crentes acresce o facto de, na Sua Lei, Deus ter confirmado que esse valor universal é Sua vontade.Não podemos, pois, deixar de dizer aos fiéis católicos que devem votar “não” e ajudar a esclarecer outras pessoas sobre a dignidade da vida humana, desde o seu primeiro momento. O período de debate e esclarecimento que antecede o referendo não é uma qualquer campanha política, mas sim um período de esclarecimento das consciências. A escolha no dia do referendo é uma opção de consciência, que não deve ser influenciada por políticas e correntes de opinião. Nós, os Bispos, não entramos em campanhas de tipo político, mas não podemos deixar de contribuir para o esclarecimento das consciências. Pensamos particularmente nos jovens, muitos dos quais votam pela primeira vez e para quem a vida é uma paixão e tem de ser uma descoberta.Assim enunciamos, de modo simples, as razões para votar “não” e escolher a Vida:
1ª. O ser humano está todo presente desde o início da vida, quando ela é apenas embrião. E esta é hoje uma certeza confirmada pela Ciência: todas as características e potencialidades do ser humano estão presentes no embrião. A vida é, a partir desse momento, um processo de desenvolvimento e realização progressiva, que só acabará na morte natural. O aborto provocado, sejam quais forem as razões que levam a ele, é sempre uma violência injusta contra um ser humano, que nenhuma razão justifica eticamente.
2ª. A legalização não é o caminho adequado para resolver o drama do “aborto clandestino”, que acrescenta aos traumas espirituais no coração da mulher-mãe que interrompe a sua gravidez, os riscos de saúde inerentes à precariedade das situações em que consuma esse acto. Não somos insensíveis a esse drama; na confidencialidade do nosso ministério conhecemos-lhe dimensões que mais ninguém conhece. A luta contra este drama social deve empenhar todos e passa por um planeamento equilibrado da fecundidade, por um apoio decisivo às mulheres para quem a maternidade é difícil, pela dissuasão de todos os que intervêm lateralmente no processo, frequentemente com meros fins lucrativos.
3ª. Não se trata de uma mera “despenalização”, mas sim de uma “liberalização legalizada”, pois cria-se um direito cívico, de recurso às instituições públicas de saúde, preparadas para defender a vida e pagas com dinheiro de todos os cidadãos.“Penalizar” ou “despenalizar” o aborto clandestino, é uma questão de Direito Penal. Nunca fizemos disso uma prioridade na nossa defesa da vida, porque pensamos que as mulheres que passam por essa provação precisam mais de um tratamento social do que penal. Elas precisam de ser ajudadas e não condenadas; foi a atitude de Jesus perante a mulher surpreendida em adultério: “alguém te condenou?... Eu também não te condeno. Vai e doravante não tornes a pecar”.Mas nem todas as mulheres que abortam estão nas mesmas circunstâncias e há outros intervenientes no aborto que merecem ser julgados. É que tirar a vida a um ser humano é, em si mesmo, criminoso.
4ª. O aborto não é um direito da mulher. Ninguém tem direito de decidir se um ser humano vive ou não vive, mesmo que seja a mãe que o acolheu no seu ventre. A mulher tem o direito de decidir se concebe ou não. Mas desde que uma vida foi gerada no seu seio, é outro ser humano, em relação ao qual tem particular obrigação de o proteger e defender.
5ª. O aborto não é uma questão política, mas de direitos fundamentais. O respeito pela vida é o principal fundamento da ética, e está profundamente impresso na nossa cultura. É função das leis promoverem a prática desse respeito pela vida. A lei sobre a qual os portugueses vão ser consultados em referendo, a ser aprovada, significa a degenerescência da própria lei. Seria mais um caso em que aquilo que é legal não é moral.
3. Pedimos a todos os fiéis católicos e a quantos partilham connosco esta visão da vida, que se empenhem neste esclarecimento das consciências. Façam-no com serenidade, com respeito e com um grande amor à vida. E encorajamos as pessoas e instituições que já se dedicam generosamente às mães em dificuldade e às próprias crianças que conseguiram nascer.
Lisboa, 19 de Outubro de 2006

Fé e Razão


Fé e Razão

conferência pelo Professor João César das Neves

21:30, 23 de Outubro de 2006

Sala Alberto Lourenço

Igreja de Santa Isabel

Lisboa

EJNS

não

71 anos da Penguin

2006-10-21

O futuro de Manuel Anselmo





















Ficou-me, desde há muito, a grata lembrança de um encontro nodal com um excelente crítico da literatura portuguesa de nome Manuel Anselmo. Lembro aquele texto reactivo publicado no último número da “presença” (Fevereiro de 1940) e, desde então, sempre acresce toda a estranheza pela obnubilação a que o intelectual tem sido sujeito, nomeadamente nos últimos tempos. Respondendo ao ataque de Casais Monteiro, Anselmo, dotado de uma hermenêutica de leitor avessa a tecnocracia, exalça Régio e mostra-se na simplicidade superior de quem, de facto, lê.
Manuel Anselmo nasceu em Valadares (22 de Março de 1911) e faleceu em Lisboa (28 de Agosto de 1992). Licenciado em Direito, deixou-nos uma obra multiforme, que merece urgente revisitação: a novela “Tragédia do Querer Viver” (1929), o ensaio “A Paisagem e a Melancolia no Drama Lírico de Feijó” (1933), “O Mutualismo como Doutrina Social” (1933), “As Ideias Sociais e Filosóficas do Estado Novo” (1934), “Soluções Críticas” (1934), “Gramática Política (Ensaios Doutrinários” (1935), “Antologia Moderna (Ensaios Críticos)” (1937), “Panorama (Crónica e Impressões)” (1938), “A Poesia de Jorge de Lima (Ensaio de Interpretação Crítica)” (1939), o romance “O Pecado Original” (1940), “Caminhos e Ansiedades da Poesia Portuguesa Contemporânea” (1941), “Família Literária Luso-Brasileira (Ensaios de Literatura e de Estética)” (1943), “Manoel Lubambo, a Amizade Luso-Brasileira e a Latinidade” (1943), “Meridianos Críticos” (3 séries: 1946, 1950 e 1960) e “Os Cadernos de Manuel Anselmo” (1951-1961), poliédricos e polémicos q.b.
Relembro que o primeiro ensaio de Manuel Anselmo é, ainda hoje, um dos mais fulgurantes estudos sobre António Feijó. Eis mais um exercício de mostração que o leitor haverá de completar…

2006-10-20

Olha, não há ninguém igual...

"Olha, não há ninguém igual. Cada um tem os seus olhos e, quando vê uma coisa, cada qual a vê conforme o tamanho e a cor dos seus olhos... Tu sabes lá!... Nem eu..."

(Branquinho da Fonseca, "Os olhos de cada um")


2006-10-19

Saúde para todos


Baseada nos Objectivos do Desenvolvimento do Milénio e nas Metas para a Saúde 21, a Escola Superior de Saúde de Viseu, vai realizar uma mesa redonda alusiva ao tema: “Saúde para Todos – diferentes perspectivas para a cooperação e desenvolvimento” no dia 24 de Outubro pelas 10h na Aula Magna do IPV no sentido de tentar promover/motivar uma reflexão conjunta, acerca do estado da saúde no mundo.

Será pois objectivo desta acção promover a descentralização, a igualdade de oportunidades e acima de tudo luta contra a indiferença. Estarão connosco nesta mesa redonda as seguintes entidades:

- Escola Superior de Educação de Viana do Castelo (Gabinete de Estudos para a Educação e Desenvolvimento);
- Instituto de Solidariedade e Cooperação Universitária (ISU);
- Médicos do Mundo;
- Associação Saúde em Português;
- OIKOS ;
- Assistência Médica Internacional (AMI).

Promover a equidade, a igualdade de oportunidades a dignidade humana na busca de uma cada vez maior justiça social, onde todas as pessoas tenham uma equidade aos cuidados de saúde são alguns dos motivos que regem a esta acção.
Todos os Viseenses interessados em participar neste momento de reflexão, poderão dirigir-se à Escola Superior de Saúde de Viseu e inscrever-se junto da telefonista até ao próximo dia 19 de Outubro.

Obrigado

Uma cultura da morte



















A atracção pela morte é um dos sinais da decadência.
Portugal deveria estar, neste momento, a discutir o quê?
Seguramente, o modo de combater o envelhecimento da população.

Um país velho é um país mais doente.
Um país mais pessimista.
Um país menos alegre.
Um país menos produtivo.
Um país menos viável – porque aquilo que paga as pensões dos idosos são os impostos dos que trabalham.
Era esta, portanto, uma das questões que Portugal deveria estar a debater.

E a tentar resolver. Como?
Obviamente, promovendo os nascimentos.
Facilitando a vida às mães solteiras e às mães separadas.
Incentivando as empresas a apoiar as empregadas com filhos, concedendo facilidades e criando infantários.
Estabelecendo condições especiais para as famílias numerosas.
Difundindo a ideia de que o país precisa de crianças – e que as crianças são uma fonte de alegria, energia e optimismo.
Um sinal de saúde.
Em lugar disto, porém, discute-se o aborto.
Discutem-se os casamentos de homossexuais (por natureza estéreis).
Debate-se a eutanásia.
Promove-se uma cultura da morte.

Dir-se-á, no caso do aborto, que está apenas em causa a rejeição dos julgamentos e das condenações de mulheres pela prática do aborto – e a possibilidade de as que querem abortar o poderem fazer em boas condições, em clínicas do Estado.
Só por hipocrisia se pode colocar a questão assim.
Todos já perceberam que o que está em causa é uma campanha.
O que está em curso é uma desculpabilização do aborto, para não dizer uma promoção do aborto.
Tal como há uma parada do ‘orgulho gay’, os militantes pró-aborto defendem o orgulho em abortar.
Quem já não viu mulheres exibindo triunfalmente t-shirts com a frase «Eu abortei»?

Ora, dêem-se as voltas que se derem, toda a gente concorda numa coisa: o aborto, mesmo praticado em clínicas de luxo, é uma coisa má.
Que deixa traumas para toda a vida.
E que, sendo assim, deve ser evitada a todo o custo.
A posição do Estado não pode ser, pois, a de desculpabilizar e facilitar o aborto – tem de ser a oposta.
Não pode ser a de transmitir a ideia de que um aborto é uma coisa sem importância, que se pode fazer quase sem pensar – tem de ser a oposta.
O Estado não deve passar à sociedade a ideia de que se pode abortar à vontade, porque é mais fácil, mais cómodo e deixou de ser crime.

Levada pela ilusão de que a vulgarização do aborto é o futuro, e que a sua defesa corresponde a uma posição de esquerda, muita gente encara o tema com ligeireza e deixa-se ir na corrente.
Mas eu pergunto: será que a esquerda quer ficar associada a uma cultura da morte?
Será que a esquerda, ao defender o aborto, a adopção por homossexuais, a liberalização das drogas, a eutanásia, quer ficar ligada ao lado mais obscuro da vida?
No ponto em que o mundo ocidental e o país se encontram, com a população a envelhecer de ano para ano e o pessimismo a ganhar terreno, não seria mais normal que a esquerda se batesse pela vida, pelo apoio aos nascimentos e às mulheres sozinhas com filhos, pelo rejuvenescimento da sociedade, pelo optimismo, pela crença no futuro?
Não seria mais normal que a esquerda, em lugar de ajudar as mulheres e os casais que querem abortar, incentivasse aqueles que têm a coragem de decidir ter filhos?

José António Saraiva, in Sol, de 14 de Outubro
A fotografia, que abre o texto, é da nossa responsabilidade e é da autoria de paulo neto (Rio Paiva, 2002).

2006-10-18

Kuhn e o paradigma




A noção de paradigma foi trazida para a ribalta, para a moda até, pelo filósofo, historiador e sociólogo das ciências Thomas Kuhn, em 1962. De facto, o intelectual norte-americano, no ano supracitado, em A Estrutura das Revoluções Científicas, postula que a história das ciências não se baseia no confronto teórico, mas antes nas relações das teorias com os respectivos contextos e nas suas capacidades explicativas. Mas ouçamos um evocativo trecho kuhniano:

O historiador da ciência que examinar as pesquisas do passado a partir da perspectiva da historiografia contemporânea pode sentir-se tentado a proclamar que, quando mudam os paradigmas, muda com eles o próprio mundo. Guiados por um novo paradigma, os cientistas adotam novos instrumentos e orientam seu olhar em novas direcções. E o que ainda é mais importante: durante as revoluções, os cientistas vêem coisas novas e diferentes quando, empregando instrumentos familiares, olham para os mesmos pontos já examinados anterior-mente. É como se a comunidade profissional tivesse sido subitamente transportada para um novo planeta, onde objetos familiares são vistos sob uma luz diferente e a eles se apregam objetos desconhecidos.[1]

Deste modo, fácil se torna inferir que o cientista, ultrapassada uma qualquer fase tradicional, é obrigado a reeducar a percepção do seu meio e a reaprender as novas formas, mesmo que tal implique uma ruptura total com as "verdades" de toda uma vida. E a existência de dissonâncias no meio científico ou literário, afinal, explicar-se-á à luz de paradigmas diferentes em vigência e em contacto. O certo é que "embora o mundo não mude com uma mudança de paradigma, depois dela o cientista trabalha em um mundo diferente."[2]

[1] Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas , S. Paulo, Ed. Perspectivas, 1976, pp. 145-146.
[2] Id. , ibid. , p. 157.

2006-10-15

Manuel da Silva Gaio: da escuridão glauca


casa de Silva Gaio . paulo neto 2006.

Manuel da Silva Gaio (1860-1934) é hoje um escritor quase desconhecido, não sendo fácil, sequer, encontrar as suas obras, a não ser em alfarrabistas e em bibliotecas, públicas e privadas. O nome, tantas vezes confundido com o de seu pai, António da Silva Gaio, não tem visibilidade, seja em histórias da literatura, seja até em fortuna crítica.
O pai, médico e professor de Higiene na Universidade de Coimbra, nascera em Viseu, ficando talvez mais conhecido que o filho por via de um romance de êxito intitulado Mário – Episódios das lutas civis portuguesas (1868). Mais artista, não logrou Manuel da Silva Gaio a sorte do progenitor.
Alguns passos têm sido dados contra a ocultação, destacando eu, de 1998, o ensaio de José Carlos Seabra Pereira A obra e a acção literária de Manuel da Silva Gaio. Possa cada um acrescentar um passo, lendo alguns dos seus títulos esquecidos nos melhores livreiros. Assim o fiz, passam alguns meses, quando peguei em A Dama de Ribadalva [1] e descobri, nesse livro de contos, um fascínio indesmentível, nomeadamente nos segmentos narrativos de tonalidade ruinosa e cinérea.
Possam, leitor sobre leitor, impedir os sinais trágicos do tempo…


[1] Na capa, lê-se Lisboa, Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, 1904, enquanto na página de rosto se diz Lisboa, Livraria Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1903.

2006-10-14

Martha de Mesquita da Câmara

Com preferência pelo soneto, sem exclusivismo, Martha de Mesquita da Câmara (1895-1980), que um Jaime Cortesão aprovava, pelo sentimentalismo contido e pela depuração formal, como a principal poetisa portuguesa (Gaspar Simões punha-a ao lado de Florbela Espanca e José Régio viria a distingui-la com atenção crítica), contribuiu decisivamente para o enriquecimento da década de 20 com as colectâneas Triste (1924), Arco-Íris (1925) e Pó do teu caminho... (1926), permitindo o último terceto do soneto "Ser Mulher" a inferição do estado da condição feminina epocal: "Não vinhas, fui-me embora a padecer, / A pensar, a sentir que ser mulher, / As mais das vezes, é não ser ninguém!" [1]
[1] Martha de Mesquita da Câmara, Pó do teu caminho..., Lisboa, Edição da "Seara Nova", 1926, p. 61. Por saber de experiência feito, é vulgar apareceram, em diferentes obras de cariz literário, informações contraditórias entre si. Poderá não ser grave. Mas é, sem sombra de dúvida, um convite ao saber minudente e cauteloso. Isto vem a propósito da propalada data de 1928 como ano de publicação de Pó do teu caminho... da poetisa em causa, informação que o cólofon antecipa para 1926 (Martha de Mesquita da Câmara, op. cit.). A obra de Martha de Mesquita da Câmara aparece reunida em Poesias Completas, Porto, 1960, conhecendo-se-lhe posteriores criações em jornais.

2006-10-12

António Gedeão (1906-1997): "são gargantas deste grito"

Passam 50 anos sobre Movimento Perpétuo de António Gedeão e quase cem anos exactos sobre o nascimento do Poeta, Investigador, Pedagogo, Cientista e Homem de Cultura de que toda a gente retém um verso ou uma história em balão. Pena é que os tempos nem por isso fáceis mais recordem a falta que fazem estes expoentes, que, em boa hora, a BN resolveu homenagear, como acontece, aliás, com outras instituições. Ilustrando o acto com fotografias enviadas por Jacinto Figueiredo, transcrevo para a página o primeiro poema do livro debutante de Gedeão, de título "Homem", como de homens falam os documentos iconográficos infra:
"Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito."
Quem vem unir-se às gargantas e ao grito?






2006-10-11

"das artes e das letras" republica "Na morte de René Garay" de Adelto Gonçalves


"das Artes e das Letras", de 9 de Outubro de 2006, volta a recordar René Garay através da republicação de texto de Adelto Gonçalves, que nós, em tempo oportuno e com permissão do Autor, mostrámos aqui e ali.

2006-10-10

António Lobo Antunes em "le magazine littéraire"

Sem nota axiológica ou deriva sobre a devassa ou o golpe comercial, Marion Mora, em le magazine littéraire de Outubro de 2006 (nº 457), dedicado a "les nouveaux enjeux de la philosophie", assinala a publicação em França de Lettres de la guerre, de António Lobo Antunes. A tradução esteve a cargo de Carlos Batista e a edição é da Christian Bourgois.

Paulo Medeiros & Sérgio Amaral



2006-10-09

Afonso Lopes Vieira

Depois da publicação de "Marques" (1904), romance injustamente esquecido (o que já foi dito, penso, por Gaspar Simões, e por mim sentido no momento da leitura), Afonso Lopes Vieira traz a lume o fundamental livro de poesia O Encoberto (1905). Deixo-vos o indicioso explicit:
"Amanhece! Amanhece! O sol vem perto!..."

2006-10-08

Judith Teixeira

................................................
Álgida madrugada de luar...
Infernal tentação!
Eu não posso desfitar...
a boca rubra e incendiada
do meu Anão!
................................................
("O anão da máscara verde", Decadência)


Mais sobre Judith Teixeira, aqui.

2006-10-06

biblioclasmo



Sem espanto, leio na revista Os Meus Livros (nº 44, Outubro 2006):

IRAQUIANOS QUEIMAM LIVROS

Todos recordam as célebres imagens do “Fahrenheit 451”, com os bombeiros a queimar livros. Pois bem, escritores e livreiros iraquianos reviveram a cena, fazendo uma enorme fogueira para contestar o recolher obrigatório em Bagdade, que afirmam ter transformado o centro da actividade intelectual local numa “rua fantasma”. “A rua al-Mutanabi é cara ao coração de todo o homem culto. O recolher obrigatório de sexta-feira impede muitos iraquianos de se reunirem lá. Ela transformou-se numa rua fantasma”, lamentou Naim al-Shatri, proprietário de uma das mais antigas livrarias daquela artéria. Kazim Rachid Salum, crítico e argumentista de cinema, lamentou o fim do leilão semanal de livros raros e antigos que se realizava na rua e o facto de os estudantes, agora, não poderem ir lá comprar novos livros.

O refúgio espiritual de Montaigne entrega assim o corpo ao fogo, lembrando que a sede biblioclástica vem detrás, dos destruidores encartados que decretam recolheres e delitos de opinião. Também Cervantes avisara de que as letras conduzirão o homem ao fogo. Sem ajoelhar ao aurático dos livros, lamento todos os livros perdidos e todas as proibições à print culture na cidade das mil e uma noites. Bem avisa Steiner a respeito das metalinguagens dos guardiões.
O livro interessa-me, mesmo que mero objecto museológico que alguns corifeus teimam em apregoar. Prezo também os silêncios dos poetas ou dos seus maiores Pitágoras, Sócrates e Cristo, parece que ágrafos e , no entanto, transmissores…
No espaço cego que ninguém vê, o podre dos dias avança e Ipek Calislar é julgada, porque sim. Rumo à desparição, há muito que o homem caminha para um epílogo trágico. Vale aqui o fulgurante esforço do resistente Iggy Pop.