2006-06-30

dançar



Dançar
Companhia Nacional de Bailado / Sexta, 30 de Junho_Grande Auditório_22h00 Dança_15€_M/6_90m

A Companhia Nacional de Bailado apresenta-se pela primeira vez no Teatro Municipal da Guarda. Um espectáculo a não perder.

5 Tangosde Hans van Manen
La Roséede Mehmet Balkan
Por vos muero de Nacho Duato

Produção Companhia Nacional de Bailado

NARNIA



PORTUGAL EM MISSÃO JOVENS PROFISSIONAIS CATÓLICOS

EXIBIÇÃO DO FILME “AS CRÓNICAS DE NÁRNIA”

A associação Portugal em Missão – Jovens Profissionais Católicos tem a honra de convidar V. Exª para a exibição do filme “As Crónicas de Nárnia – o Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa”, seguida dos comentários do Padre Hugo Santos, que serão muito úteis para uma melhor compreensão do seu conteúdo.
Este filme, cujo enredo se passa num mundo de fantasia composto de figuras humanas e animadas, está repleto de simbologia cristã. Na verdade, esta adaptação cinematográfica do livro homónimo de C.S. Lewis aborda, entre outros, a eterna luta entre o bem e o mal, o sacrifício de Cristo, a Santíssima Trindade, os discípulos, etc.


Local/data: Igreja de São Nicolau (sala grande), no dia 29 de Junho (5ª feira), pelas 21h15m
Duração: Filme (138 minutos) e comentários (15 minutos)


Entrada livre

2006-06-29

quando partires a morte

nina ulana. "scarlet fever". acrylic on canvas.

apura-se o tacto contra a língua.


por ti desce extenuada peregrina
afogueando a pequena face.


junto à unha um gato dorme
e nada diz do corpo alado
que vai e vem dentro do tímpano.


quando partires onde a tua pele
onde o arco a lira do teu corpo.

2006-06-27

O chão e o lume (IV)

AUTORIA: MATA-HARI

HELENA DESCOBRE VOLTAIRE

Marta tinha os cabelos castanhos, às vezes dourados pintados cor de sol, um pequeno sinal sobre o lábio fino superior, cantava ópera e comia sushi. Durante as manhãs sentava-se na esplanada, pedia croissants, morangos verdes, espumante Moet e café. Adorava gastronomia asiática e cozinhava todas as semanas só para si. Quando tinha visitas comiam fora. Naqueles dias ela costumava acordar cedo. Nos outros quase não se levantava. Ficava por ali meio parada a ver o mundo passar-lhe. Devagar.

Depois a cidade em frente de nós. Depois nós a chegar. Deslocar. Sabíamos que tudo seria diferente, das coisas diferentes. Das coisas de antes. A diferença é uma coisa de natureza diversa, mesmo para nós criaturas dulcíssimas. Açúcar. Na cidade as pessoas iam construindo pequenas histórias. As suas. Narrativas.

- Quando te começo a ouvir deixas logo de falar.
- Com o silêncio tudo acaba por ser dito. Trago-te perdido em mim.
- Descobri que esse é o lado que escondo. As coisas mais estranhas fazem-me feliz e o silêncio para mim é de um ruído estridente.

Chegámos a este lugar à procura de algo que nenhum de nós sabe ou pode explicar. Talvez ele nos traga uma parte de nós, ou do nosso passado, que ainda não sabemos explicar. Lugares de infância que um dia quisemos voltar a lembrar. Relembrar. De repente tudo se precipitou. Veio-me tudo à cabeça. Trago-te à flor da pele. Desesperado, procuro um canto onde te posso esconder. Agarra-me.

- O Bruno regressa hoje de Praga. Disse-me que chegava cedo. Eu disse-lhe que o esperava. Desesperava. Ele disse-me que tinha saudades. Eu disse-lhe que não sabia o que isso significava. Era uma questão de semântica talvez gramática até. Concordância.

- Porque estamos aqui neste lugar ? Porque viemos aqui ?
- Talvez porque ambos sabemos que tudo seria igual ao que queríamos que fosse. Uma realidade mais próxima da ficção. No que quer que isso pudesse significar. Insignificante.
- Já aqui estivemos antes. É um erro envolvermo-nos emocionalmente com um deles. Somos manipulados.
- O sonho das marionetas é serem humanos.
- Não há respostas. Apenas escolhas.
- A nossa existência é uma inevitabilidade. Não compreendo o que se está a passar à minha volta. Acho que não sou eu. Estou assustada. Não sou capaz de viver com isto. Não me lembro de lá ter estado. Nunca pensei reagir assim. Sem ti não consigo.
- Encontraste-me?
- Vim para te encontrar. Desculpa. Foge-me.

Continuei sempre à espera que pudesses voltar. Regressar. Tudo poderia ser afinal como antes era. Terias de ser tu a dar esse sinal. O que querias para nós. Ambos sabíamos que quando a nossa história fosse publicada pouco ficaria no final. Afinal. Tu e eu morreríamos de nada, desapareceríamos tal como aparecemos e as nuvens dariam lugar a um céu limpo sem nada.

- Como foi a tua infância ?
- Não sei muito bem. Esqueci a maior parte. Tenho andado a juntar algumas partes, relembrar destroços, pequenos nadas. Na maior parte das imagens existem sempre paisagens. Paisagens de lugares vazios, por vezes outras crianças que nunca mais vi e o meu avô a contar histórias. Contava histórias de pessoas que nunca conheci ou conhecerei. Descrevia-me um mundo com sonhos. Ilusões. Algumas pessoas nunca falavam só ouviam. Outras só falavam nunca ouviam. Outras nunca existiram.

Helena sempre quis conhecer a mãe que nunca teve. Queria perdoar-lhe, o que ela nunca lhe perdoou. No mundo dela, a mãe era-lhe estranha. Desconhecida. Tudo lhe era vazio. Todo o homem é culpado de todo o bem que não faz.

- O amor tem sinais que não podem ser confundidos.
- Sabes Helena, por mais que te queira esquecer há sempre alguma coisa que não me deixa avançar e me prende ao chão e aos lugares que antes, tu e eu ocupávamos. Povoar.
- A razão consiste em ver as coisas como elas são.

Helena tinha voltado para casa. Disse-me que tinha voltado, eu disse-lhe que sabia. Ela queria muito voltar. Aceitei. A mulher que me matou do coração, mesmo eu que não tenho coração. You kill me dear!

- É sempre bom voltarmos aos lugares de onde partimos, mesmo que isso possa significar um regresso ao passado que já não existe. Estamos sempre a construir algo de novo, por muito que tudo pareça igual ao que sempre foi.
- Não vale a pena lamentar o que não tem lamento. Se não encontramos nada de agradável pelo menos encontramos alguma coisa de novo.
_ Passa-me a tua mão pela minha testa. Não sentes calor?
_ Um dia destes ainda nos apaixonamos e depois ?
- Não sei o que isso possa significar. Talvez seja uma questão de oportunidade e do lugar. Ou uma questão de tempo sem lugar nenhum. Diferente. Alguma mudança comportamental, calor, falta de ar, suspirar. Respire fundo !
- Um dia destes ainda caímos os dois num buraco negro, que nos sugará para o seu interior. Calor.
- Os buracos negros não perdoam. The dark side of the force!

Ás vezes visitava Joana. As raparigas têm coisas para dizer. Onde há mulheres há problemas. Dizia-me. Outras vezes era ela que me visitava. Gostava de gelados em bocados pequenos. Pequenas partes. Passava cremes oleosos com sabores a frutas no seu corpo, quase gordo, untava-se com vegetais e cheiros orientais. Despia-se, acariciava-se, nutria-se, comia-se. Por vezes vestia-se de vermelho. Sorria devagar. Back to basic forms !

- Já falaste hoje com o teu anjo da guarda ?
- Acabei de ordenhar as vacas. As fogueiras representam o despertar da natureza é o regresso da Primavera aqui a este lugar.

Por aqui já não havia ninguém. Foram todos à procura dos outros que antes foram. Trazias um casaco castanho escuro de cabedal, uma boina preta agarrada ao cabelo e fugias. Fugias de tudo que andava à volta. Vivíamos numa carruagem de comboio que estava sempre em movimento.

_ Sabes Joana, ainda não te conheço o suficiente par te poder beijar. Matar. Ambos somos assassinos profissionais, contratados do crime organizado, sempre à procura da nossa próxima vítima. A soldo. Mãos ao ar ! Jogamos jogos perigosos, sangue, lágrimas, violência. Com isso sobrevivemos às crises dos nossos tristes corações. Sometimes there are things we can´t explain!

- Ainda não encontrei o significado para aquilo que sinto por ti. O lugar em que agora te abandono será o mesmo em que te encontrei em tempos. Uma enorme paisagem de flores que os meus olhos colheram para te oferecer em histórias que te quis contar e muitas que te contei, nos beijos que te quis dar e dei, nas lágrimas por que me fiz lembrar e em tudo que no final deixei ficar. As coisas dispostas como tinha encontrado, os mesmos lugares lindos dos sonhos, as nuvens que não traziam chuva nem mau tempo mas apenas a sombra dos dias quentes de Verão que nunca soube suportar. Valeu a pena os dias que te perdi ao lado das coisas. Todos os dias que abandonei para te ter, ao largo, ao lado na cama do quarto, da roupa interior e das festas que te fiz dar sem querer. Ainda te lembras do Outono? Abandonei-o.

ao revés da opacidade: o ficcionista João Gaspar Simões (1903-1987)

mário eloy. óleo s/tela (1937/38).
À Isabel Mendes Ferreira, porque sim
A desafeição é afastamento e frieza improdutiva. Cada palavra nascida é língua e discurso. As razões do coração lutam sempre contra a feudalização da literatura. Pouco importa já mais do mesmo, se que cada leitor produtivo cede aos ventos poliacroásicos e refresca a literatura “diferentemente”.
São avisos do destino aqueles que se insinuam na pouca lida ficção de João Gaspar Simões, esse incansável leitor e crítico que marcou gerações de amantes da literatura e os fez, mal ou bem, consigo concordar ou discordar. A sua hermenêutica historicista e desapegada do estatuto académico gerou opositores e detractores. E, no entanto, se muita razão houve em alguma confutação, que antes dimanava do carácter omnívoro do seu criticismo que do credo estético, certo é que nem muitos foram mais longe (quem e quantos?) ou mais fizeram pela “mostração” literária.
Pego, em primeiro, no crítico-ensaísta e aprecio um monumento perene que, “pecando” aqui e ali pela ousadia, é de todo admirável. Vejamos, sem exaurimento, algumas das obras em enumeração: Temas (1929), O Mistério da Poesia (1931), Tendências do Romance Contemporâneo (1933), Novos Temas (1938), Crítica I-VIII (1942-1982), Ensaio sobre a Criação no Romance (1944), Eça de Queirós, o Homem e o Artista (1945), Vida e Obra de Fernando Pessoa (1950), História da Poesia Portuguesa (1955), Literatura, Literatura, Literatura...- de Sá de Miranda ao Concretismo Brasileiro (1964), Novos Temas, Velhos Temas – Ensaios de Literatura e Estética Literária (1967), História do Romance Português (1967-1972), Heteropsicografia de Fernando Pessoa (1973), Vida e Obra de Eça de Queirós (1973), José Régio e a História do Movimento da “Presença” (1977) e A Geração de 70 (1984).
Avanço para a face oculta de João Gaspar Simões, a de ficcionista, que desvelo na frieza dos títulos: Elói ou o Romance Numa Cabeça (1932), Uma História de Província I – Amores Infelizes (1934), Uma História de Província II – Vida Conjugal (1936), Pântano (1940), A Unha Quebrada (1941), O Marido Fiel (1942) e Internato (1946).
Paro à porta da ficção e relembro. Que Gaspar Simões nasceu na Figueira da Foz, a 25 de Fevereiro de 1903, e veio a falecer em Lisboa, seis dias passados do primeiro mês de 1987. Que foi, pasme-se!, biógrafo, crítico literário, ensaísta, dramaturgo, novelista e romancista. Que, e tal lhe bastaria, foi um dos fundadores da revista presença.
Volto à ficção e assinalo o halo sedutor que se levanta ainda da escrita narrativa de Gaspar Simões. Lembro também que o seu primeiro romance, Elói ou o Romance Numa Cabeça, de 1932, é julgado pela crítica o primeira obra ficcional psicologista da literatura portuguesa, sendo, de acordo com Óscar Lopes, o seu mais claro conseguimento. Tal título veio a conquistar nesse mesmo ano o “Prémio da Imprensa”, conhecendo novas edições revistas em 1941 e em 1959, bem como uma outra, sem data, de início da década de 70, e a última, de 2003. Elói é um arrebatador romance vivido numa cabeça, sem que isso acarrete esmorecimento na construção da personagem homónima. Ligando-se a acção narrada ao acto de narrar, é causa de fascínio aquele presente do indicativo que se inscreve desde a frase inicial: “Elói está deitado.” Mas não só. Também aquela imagem cesarina da leiteira de belas ancas ou a tensão modernista e regiana do eu fraccionado ou ardimento interior por obra do ciúme ou a cela prisional semelhando a caverna de Platão ou a volta à vida num só dia (como em Joyce) ou a recorrente tonalidade homossexual, que atrai ou causa repulsa: “Lembra-se de estar deitado com ele, de barriga para o ar, os olhos fechados por causa do sol, e as mãos nas mãos.”
É quase tempo de acabar. Mostro ainda Internato, romance da clausura e do sitiamento: com o seu halo claustral e a impossibilidade de o homem ser livre, imerso em aparições tenebrosas e em cometimentos que continuam a ensombrar os nossos dias. A literatura ensina, como se sabe: no caso, que a pedofilia, por exemplo, acontecia num transmigrado colégio onde os “meninos bonitos” se esfregavam com o Director dito Barbas e não só. Na literatura , como na vida...

2006-06-26

de novo, Gancho









Sem vulgar incisão no tempo da morte, afirmo que desde há anos me fascina a poesia e o trajecto biográfico de António Luís Valente Gancho. Citando-o ou mencionando-o, penso até que a minha circunstância e os contactos comigo havidos tenham levado a notícia do Poeta a outros leitores, a diferentes leituras.
Nascido em Évora, no ano de 1940, ei-lo em Lisboa, na juventude dos 16 anos, pronto a partilhar, em breve, o bulício das conversas surrealistas. Mas cedo o espelho se embacia e a tentativa de suicídio com o fio de telefone, por volta dos 20 anos, felizmente frustrada, condu-lo a sucessivos internamentos nos Hospitais Júlio de Matos e Miguel Bombarda. Considerado esquizofrénico pela ciência médica, é internado, em 1967, na Casa de Saúde do Telhal, onde veio a morrer, quase quarenta volvidos, no dia 2 de Janeiro de 2006.
O poeta “louco” morreu dentro da noite, de ataque cardíaco ou de morte outra e provocada, parece que rindo lucidamente como só alguns o fazem. Ficam connosco as memórias e os ritmos da vida. E também dois livros publicados: O ar da manhã (1995) e a novela erótica As Dioptrias de Elisa (1996). O primeiro título é uma importante colectânea poética que reúne composições de 1960 a 1967 (os 36 poemas de “O ar da manhã”), de Dezembro de 1985 a Fevereiro de 1986 (os 30 poemas de “Gaio do espírito”), de Junho a Julho de 1989 (os 50 “Poemas digitais”) e de Dezembro de 1985 (os 10 poemas de “Poesia prometida”).
Defendia o poeta, desde o início, ouvir-se a poesia “na noite rumorosa onde sonham / pássaros azuis e se ouve sempre útil e maliciosa / a voz negra e fundamental do galo”. Não espanta a delicada “inveja” de Herberto Helder ao sempre ter desejado escrever assim. Em António Gancho, conhece-se melhor o dentro das coisas. Com uma poesia assim vamos até “Aonde a planície já não tiver um sentido”. E, agora, chegado o dia em que “a morte há-de descer / ao comprimento dos céus” cumpre dizer a última palavra de Ar da manhã : “Aceitar.”
A morte de António Gancho é absolutamente impossível.
[A fotografia acima, em destaque, é de Miguel Carvalhais. Este texto reproduz quase integralmente um artigo publicado no Jornal do Centro em Janeiro de 2006)

2006-06-25

coluna de Agrigento: sobre o viseense António Nunes de Carvalho

Ouve-se ainda a canção de uma grande e deslembrada vida. Vinda do interior da cidade, do pulsar visceral mais íntimo, a voz ressoa sempre desde o centro mais sagrado. Esta fábula corre dois séculos e conhece o epimítio: que os filhos da terra abandonarão a memória e serão mera legenda. Contra o destino já traçado, algumas e importantes vozes se foram levantando, desacomodadas e iluminadas. No fogo da decisão, ninguém favorece mais os verdadeiros feitores da pátria. Só o tempo e os verbos desobrigados lutam contra a fatalidade. E digo José Júlio César, Alexandre de Lucena e Vale, Alexandre Alves e Júlio Cruz. E digo que se deve ser fiel à justiça.
António Nunes de Carvalho da Costa Monteiro de Mesquita nasceu, a 16 de Junho de 1786, na cidade de Viseu, naquela casa quinhentista da Rua Direita, ocupada, desde há anos, pela farmácia Mouro. Destinado pelo pais à vida religiosa, ei-lo matriculado desde cedo no Colégio Oratoriano de S. Filipe de Nery, instituição em que revelará brilhante inteligência e invulgar apetência para as humanidades clássicas. Tal genialidade permitiu que apenas com 18 anos fosse nomeado professor de Latim. A fama de Nunes de Carvalho irradiou até bem longe e D. Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas, Arcebispo de Évora, chamou-o para junto de si. Em breve, o intelectual viseense era por lá tido como “um dos mais doutos e esclarecidos espíritos”.
Devido às Invasões Francesas, abandona Nunes de Carvalho a cidade de Évora, não sem antes ajudar o seu protector Frei Manuel do Cenáculo. Ambos aí regressam mais tarde, resolvendo o conhecido Arcebispo recompensar os serviços e o talento do nosso conterrâneo com a oferta da maior parte da sua biblioteca.
Em 1813, é professor do Colégio das Artes de Coimbra; formado em Cânones e Leis, toma o grau de doutor, em 1822, passando, nesse mesmo ano, a professor efectivo da Universidade de Coimbra; por razões políticas, é obrigado a deixar a cidade do Mondego, em 1828, tendo sido perseguido pelos miguelistas a ponto de emigrar para França e Inglaterra. Investigador ilustre e cuidadoso filólogo, vem a encontrar no Museu Britânico de Londres o então inédito “Roteiro de D. João de Castro”, que copiará com o “Itinerarium Maris Rubri” do mesmo Vice-Rei da Índia. O primeiro título será publicado em Paris, em 1833, e o breve mas seguro aparato crítico será louvado por Inocêncio Francisco da Silva. Aliás, o prefácio da obra informa que Nunes de Carvalho escreveu uma inédita “A Vida de D. João de Castro”.
Ainda em França, veio a ser professor de Literatura da filha de D. Pedro IV, futura D. Maria II. Informado bibliógrafo, citado mesmo por Larousse e Ferdinand Denis, Nunes de Carvalho regressa à Pátria (1834) e ao exercício docente, em que permaneceu até à jubilação em 1861, sendo investido, em 1836, como Bibliotecário-Mor da Casa e Real, Guarda-Mor do Real Arquivo da Torre do Tombo, Oficial-Mor da Casa Real e Presidente da Comissão de Depósito das Livrarias dos Conventos, com a função de coligir no Convento de S. Francisco de Lisboa os livros e códices de instituições religiosas da capital, da Estremadura e do Alentejo. Homem de cultura, fez conduzir para a Academia das Belas Artes de Lisboa mais de 400 quadros.
António Nunes de Carvalho vem a falecer em Coimbra, no dia 5 de Julho de 1867, cidade em que, afinal, viria a ser sepultado.
A valiosa biblioteca que congregou durante uma vida longa e multifacetada deixou-a Nunes de Carvalho à cidade de Viseu, a fim de ser criada uma biblioteca pública . E assim a nossa Câmara de então veio a receber cerca de 10000 volumes, folhetos e obras incompletas. Entre eles, estava a “Uirtuosa Benffeyturia” do infante D. Pedro, que o erudito Dr. Amadeu da Silva resgatou, em inícios da década de vinte do século passado, da impensável função de calçar uma estante da Biblioteca Municipal. Avultam ainda importantes incunábulos do século XV e outras magníficas espécies e obras únicas.
Retratado a óleo por António José Pereira (1862) e nome de rua desde 20 de Outubro de 1910, Viseu clama, pelo menos desde 1946, por muito mais. Uma lápide na sua velha casa não seria pedir muito. Quanto a dar o nome à Biblioteca Municipal ( e o que está feito, está feito), havia sempre o inultrapassável defeito de ter nascido em Viseu. E de ter sido “pedra fundadora”.
Poucos puderam dar tanto. Assim o diz a grandiosidade da sua dádiva. Ouvem-se ainda os ecos. E as vozes de 1946, 1970, 1981, 2002 e 2003. De Viseu, em volta da coluna de Agrigento. Sempre.

2006-06-24

lágrimas gregas



É já tarde por sobre a colina da sé
- diz o sol que vai caindo no horizonte
escurecendo o casario já cansado
e lembrando que dentro deste porto-batel
eu sou eu e a visão luminosa
a que longe sempre regresso.

2006-06-23

Cabral nascido em Viseu? (A heurística laboriosa de Fernando de Gouveia e Sousa)
















“ ... o trabalho de investigação, de leitura, da cópia, além de exigir conhecimento perfeito de paleografia, supõe qualidades raras de estudo, de trabalho, de perseverança que só um estudioso apaixonado, como é o Dr. Fernando de Gouveia e Sousa, pode reunir.”
(Alexandre de Lucena e Vale, Beira Alta , Ano XXX (1971), nº 4, p. 576)


O “achamento” do Brasil implica um insuperável e, no entanto, aceitável anacronismo. Afinal, como não utilizar o mágico topónimo para um espaço geográfico, que, em propriedade, não existia ao tempo da chegada cabralina? Ainda assim, dizer Brasil é, para todo o sempre, dizer Cabral e o seu sonho, não obstante toda a polémica conexa que passa pelo acaso ou intencionalidade da acção ou pelas possibilidades, não descartáveis, de dois anos antes por lá ter andado o Duarte Pacheco Pereira do Esmeraldo de Situ Orbis e de dois meses antes, na latitude da foz do Amazonas, nessas bandas ter acostado o espanhol Vicente Yáñez Pinzón. É ainda sob o signo da incerteza que se escreve a biografia do Navegador.
Pedro Álvares de Gouveia, depois de 1500 Pedro Álvares Cabral, é, indubitavelmente, uma figura grada da nossa memória colectiva. Perto, demasiado perto da aventura que sempre ousa, o ínclito Navegador inscreve o seu nome na alma dos ansiosos do futuro. Carácter pétreo, lustral e caprichoso por desígnio onomástico – e esse desígnio é sempre a pulsão para um destino peculiar a cumprir -, a sua idiossincrasia foi caldeada na circunstância beirã que tantas vezes tem sido berço de gente de visão rasgada. João de Barros, exaltando o seu carácter natural, na “Primeira Década” da Ásia, di-lo um “homem de muitos primores acerca de pontos de honra”. Volvidos séculos, um respeitadíssimo Jaime Cortesão destaca-lo-á dos demais capitães coevos por estar “acima da moral comum da sua época.” (Cortesão 1923: 21).
Fernão Lopes, esse visionário do espírito histórico, como o caracterizou, julgo, um Herculano, cedo viu que a “mundanal afeição” sempre embota a objectividade daqueles que, querendo fazer história, cedem aos influxos camufladores dos seus lugares e das suas gentes. Não sendo rude excesso que tal aconteça, porque de si e da sua circunstância se faz o acto histórico que é também subtileza que perpassa pelo filtro da corrente sanguínea do historiador, não penso que os escritos de Fernando de Gouveia e Sousa, fruto de uma heurística laboriosa e documentada, procedam de visão distorcida e demasiado humana e subjectiva, antes se firmando na vontade de carrilar indícios documentais e na coragem de, sempre no plano probabilístico, sustentar uma tese original e nem por isso facilmente confutável, que compete, em rigor, com quaisquer outras, ciente que estava, na esteira de Joseph Hours, que a história é uma ordem (Hours 1960: 68-70). Tal modo de “fazer história” não choca com o postulado de um Carr, por exemplo, que defende que a “objectivity in history (...) cannot be na objectivity of fact, but only of relation, of the relation between fact and interpretation, between past, present, and future” (Carr 1964: 120), ou com a dimensão da história “como ciência do passado, ciência do presente” sustentada por um Barradas de Carvalho (Carvalho 1979: 67-74).
Da probidade da investigação de Fernando de Gouveia e Sousa, em texto decisivo sobre a biografia cabralina publicado na Revista da Universidade de Coimbra em 1971, fala ainda o Professor Doutor Luiz Mello Vaz de Sampayo, por lá inscrevendo o carácter rigoroso do labor histórico do estudioso viseense em moldes que, para além de exaltarem a sua heurística, não deixam ainda de vincar o seu filantropismo. O excerto que o comprova é também acabado exemplo do bom hábito, quase sempre esquecido, de se “dar o seu a seu dono”, o que, no contexto, só eleva a constituição isenta do ilustre catedrático de Coimbra. Com referência à documentação sobre a vinda a Viseu do Conde de Seia e senhor de Cascais, D. Henrique Manuel de Vilhena, a fim de receber, a 11 de Abril de 1382, uma certa quantia do cabido nas pousadas de Álvaro Gil Cabral, eis o trecho evocativo das qualidades humanas, afinal, de ambos os investigadores: “Este documento, como outros, foi-nos comunicado pela generosa e rara isenção do Dr. Fernando de Gouveia, incansável investigador viseense.” (Sampayo 1971: LXX).
Um seu insuspeito amigo – e amigo é todo aquele que, no sentido de Goethe, diz palavras que são actos... -, de seu nome Manuel Rosado Marques de Camões e Vasconcelos, disse-o o maior investigador do Arquivo de Viseu. Todas as palavras injustas são absolutamente desnecessárias. Não é o caso, julgo, até porque o conhecido genealogista conjugava o rigor com a amizade e não era homem, segundo creio, de louvor fácil e de assertos vazios.
Impondo-se ao tempo (Pinto-Reis 1968: 5) e habitualmente dado como nascido em Belmonte (Peres 1943: 370; Pinto-Reis 1968: 5; Albuquerque 1985: 172; Nunes 1994: 153; Guedes 1999: 9), muitos historiadores e investigadores de não despiciendos méritos adoptam posições mais cautelosas e conjecturais sobre a naturalidade cabralina (Peres 1968: 81; Sampayo1971:LXVI; Albuquerque 1987: 128; Cosme 1993: 208; Magalhães 1998: 193), sendo dissidentes até os mesmos autores em obras diferentes, avançando uns S. Cosmado (Marques 1963: 66) e outros a nossa cidade de Viseu (Sousa 1973: passim), sendo certo que a reconstituição biográfica de Pedro Álvares Cabral é uma work in progress que o futuro há-de afinar (veja-se, por exemplo, as dúvidas que Estevão Pinto – ele, como muitos outros -, no lugar citado, não resolve relativamente à data de nascimento cabralina ou o cariz cuidadoso de Damião Peres, dificuldades, aliás, que as últimas monografias cabralinas, de que é exemplo a de José Martins Garcia, não dissipam). Certa é a ânsia de infinito que a história escreve desde aquela partida pela tarde de 9 de Março de 1500 até ao avistamento de terra brasileira em finais de Abril do mesmo ano e que Pero Vaz de Caminha tão eloquentemente descreve: “Neste dia a horas de véspera, houvemos vista de terra; primeiramente, dum grande monte mui alto e redondo, doutras serras mais baixas ao sul e de terra chã com grandes arvoredos, ao qual monte o capitão pôs o nome de Monte Pascoal e à terra o de Terra de Vera Cruz”. Era dia 22 de Abril de 1500.
Figura polémica de acção controversa – pense-se nas teses que defendem a casualidade do achamento do Brasil (v.g. , Marques 1980: 315; Magalhães 1998: 194-196 ) e nas que postulam a clara intencionalidade do navegador português ( v. g. , Leone 1968: 193-199; Arruda 1972: 202-203; Guedes 1989: 180-190; Couto 1999: 18-31); relembre-se a eufórica partida e a circunspecta chegada por 1501... -, com motivos indutores de um halo de mistério que sempre recobre os mais dotados, é Pedro Álvares Cabral - dito por Gaspar Correia, nas suas Lendas da Índia, homem de “bom saber”- uma figura histórica nacional que não desmerece de outra gente beirã que na nossa circunstância geográfica nasceu ou se conjectura poder ter nascido, bastando citar, para tanto, os suficientes Grão Vasco, João de Barros, Gomes Eanes de Azurara ou Gil Vicente. A tese da probabilidade do nascimento de Pedro Álvares Cabral em Viseu segue à frente, a história, essa, como o diria um Duby, continua, em irónica e estimulante oposição ao sítio primeiro, logo denominado “Porto Seguro”, em que o corajoso e ponderado capitão lançou âncora em terras de Vera Cruz.
Seja, em passo quase final, o texto cabralino de Fernando de Gouveia e Sousa um contributo ainda interessante para o aclaramento da circunstância e do contexto em que nasceu e viveu aquela figura monumental que Jaime Cortesão descreve de forma tão viva no excerto que transcrevo: “... bem podemos evocar do nobre capitão o gigantesco vulto, cuidadamente vestido e adereçado, a barba pelo peito, o sobrecenho altivo, e, na face pálida e sombria de impaludado, a gravidade, a distância, a tristeza dos que não ignoram a sua perfeição.” (Cortesão 1923: 21).
Régio, escritor cuja acção literária se celebra com o pretexto do centenário do seu nascimento, disse em verso certeiro “Eu sou feliz porque SEI”. É essa a radical dignidade humana, é essa a superação consciente do roseau pensant que, na sua condição de pensador, vence as forças que o vão sitiando e ultrapassa os limites da cegueira, inscrevendo, no rasto de Marrou e em perspectiva historicista, o caminho da inteligibilidade (Marrou 1962: 28-50), sentindo desde a raiz da alma até ao vórtice venoso, ser a história a compreensão do presente pelo passado e do passado pelo presente (Bloch 1983: 39-46) . Assim o trajecto de meu pai, luz contra as trevas do desconhecimento, que, por palavras do reputado historiador viseense Alexandre de Lucena e Vale, deixou, no sector genealógico, “trabalhos valiosos que até fora de Viseu lhe lograram nome e autoridade.” (Beira Alta XXXIII-III, 1974).

Bibliografia cabralina

Albuquerque, Luís de. 1985. Os Descobrimentos Portugueses . Lisboa, Publicações Alfa.
Albuquerque, Luís de. 1987. “Pedro Álvares Cabral: O Brasil, pedra fundamental no domínio do Atlântico Sul”. Navegadores, Viajantes e Aventureiros Portugueses (Sécs. XV e XVI) II: 127-148. Lisboa, Círculo de Leitores.
Arruda, Virgílio. 1972. Presença de Cabral nas rotas do futuro. Santarém, Junta Distrital de Santarém.
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Sousa, Fernando de Gouveia e. 1969. Os ascendentes de Pedro Álvares Cabral nas suas relações com a cidade de Viseu. Terá o navegador nascido nesta cidade? Viseu, Separata da Revista Beira Alta.



Bibliografia teórica



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2006-06-21

uma lição: Fernão Lopes e a terra que o moldou


Fernão Lopes nasceu em Lisboa, por volta de 1380, e na mesma cidade viria a falecer, passados que eram dois lustros sobre meados do século XV.
Olhando o lapso temporal que se nos apresenta, de cerca de oito decénios, o que valerá a pena aclarar nessa "noite" já distante que para a frente anunciou, como superiormente o entreviu um Vergílio Ferreira, que há "um entendimento secreto entre o todo que nos define e a terra que o moldou" ?
De origem com toda a probabilidade humilde, Fernão Lopes, não obstante essa condição, poderá ter frequentado o Estudo Geral, donde, aliás, lhe deverá ter advindo o à vontade com que cita autores de renome (Aristóteles, Cícero, Ovídio, Eusébio, Santo Agostinho, Petrarca...) e manuseia estilemas. Esta erudição, e dando-se o caso, não desprezível, de ter somente cursado uma escola conventual ou catedral, chegar-lhe-ia de modo directo pelo contacto com os livros da biblioteca régia. Antes da chegada à Corte, é tabelião geral, sendo, a partir de 1418, guardador das escripturas da Torre do Tombo; em 1419, é, primeiramente, "escrivão dos livros" de D. João I e, depois, de D. Duarte; de seguida, é escrivam de puridade do Infante Santo, a quem lavrará o testamento antes da aventura de Tânger; por incumbência de D. Duarte, corre o ano de 1434, tem conhecimento oficial da função de dever escrever, como "vassalo de el-rei", com direito a tença de 14000 libras, as crónicas dos reis da primeira dinastia - e dizemos oficial, porque o cronista já o saberia oficiosamente desde 1418, data em que tomou conta do arquivo régio; posteriormente, a rainha regente D. Leonor subscreve a mesma tença, a qual virá a ser aumentada em 500 réis por D. Afonso V; é substituído como cronista, no ano de 1451, por Gomes Eanes Azurara; em 1454, deixa de ser "guarda-mor" da Torre do Tombo, em virtude de ser "tam velho e flaco que por si nom pode bem servir o dito oficio"; e, por último, aí parecendo esgotar-se o estado da questão, é sabido que ainda vivia em 1459 .
Da sua acção literária, movida pela busca da verdade objectiva que faz com que João Mendes, inspirado por Edward Spranger, veja nele um homem "teorético", resultam, com existência física comprovada, a Crónica de D. Pedro, a Crónica de D. Fernando e a Crónica de D. João I . Estas crónicas, forjadas por uma heurística da revelação, transportam consigo, sempre sob o signo da verdade que a tudo o custo importa trazer à tona, quadros vivos da sua época: como esquecermos a luta contra a "afremosentada falsidade" do estilo que ele, de facto, possuía, ou, então, e em jeito meramente exemplificativo, a presença verdadeira e justa, emocionantíssima, daquela "arraia meúda", daquele "bom pôboo" que tão bem soube emergir das trevas?
E depois, nessa gesta depós a VERDADE e a JUSTIÇA, nessa tendência pretendida e nem sempre alcançada - mas o que contava era sempre o império teorético, pronto a desvelar e exalçar das trevas, mesmo que sujeito àquele "entendimento secreto" -, toda a obra lopiana ressuma uma contínua tensão de verso e reverso, de luz e escuridão, de heroísmo e precatamento, de defesa e desvinculação, de doçura e amargura ou de razão e sentimento.
Eis, pois, mais uma humana lição para os tempos modernos…

2006-06-20

o "bloomsday" ou o rim da literatura


Pouco mais de um século passa sobre o 16 de Junho de 1904, quatro dias passam sobre ele. Saio de casa pelas oito da manhã. Sei que no sítio da literatura é o dia das sandes de gorgonzola, do vinho da Borgonha, das canecas de Guinness, dos cafés duplos e de comer rim de porco. Sei que a literatura ensina a vida e que os seus marcos geodésicos não enganam. Da minha Viseu faço Dublin, percorrendo os espaços da cidade que conheço por dentro. Entalado nos dedos, viaja um livro de nome Ulysses.
Há livros assim. A partir deles nada do que havia sido dito se mantém, nada do que acontece depois poderá permanecer indemne. Joyce é um ponto nodal da literatura de sempre. Não há discussão. Com Shakespeare, o inventor do humano , e com Baudelaire, o Mittelpunkt da literatura moderna, Joyce habita uma cidade inexpugnável à qual é necessário chegar.
James Joyce nasceu em 2 de Fevereiro de 1882, perto de Dublin, em Rathgar. Seis anos depois, ingressou no Colégio dos Jesuítas de Clongowes. Por 1891, ano em que, por razões económicas, foi obrigado a ingressar numa escola mais barata e protestante, descobrem-se-lhe os primeiros tentames literários. Em 1893, deu entrada, no Colégio Jesuíta de Belvedere, vindo, em 1898, a ser admitido na University College, instituição católica da Universidade de Dublin.
Fascinado por Ibsen, publicou, em 1900, um artigo dedicado ao escritor norueguês, com quem, aliás, entabulará correspondência. Cumprida a graduação em 1902 (Bachelor of Arts in Modern Languages ), viaja até Londres e Paris, iniciando, no ano seguinte, o também cultuado Dubliners. Em 1904, publicou diversas composições poéticas em revistas e viajou com Nora Barnacle por Zurique e Pola. Em 1905, iniciou a sua carreira docente na Berlitz School de Pola, donde transitou para a homónima de Trieste, surgindo-lhe, enquanto trabalhava uns meses em Roma, as primeiras ideias para The Portrait of the Artist as a Young Man e Ulysses. Como aluno particular, sinal do nível pedagógico de Joyce, conta-se o ainda escassamente conhecido Italo Svevo. No ano de 1907, publica Chamber Music, saindo a lume, volvido quase lustro e meio, Dubliners (1914). Em 1913, fora nomeado para a cátedra de Inglês da Escola Comercial Revoltella , em breve integrada na Universidade de Trieste. Em 1916, deu-se à estampa The Portrait of the Artist as a Young Man , e, em 1918, Exiles .
Em 1920, instalou-se em Paris, onde travará conhecimento com Valéry Larbaud e Ezra Pound. Em 1921, concluiu o Ulysses, publicando-o na não despicienda data de 2 de Fevereiro de 1922. Nesse monumento perene estava a sua vida, ainda que, logo de seguida, se lhe tenha colado a ideia do inclassificável Finnegans Wake, que viria a iniciar no ano de 1923.
O tempo vai puindo. Joyce regressou à poesia com Pomes Penyeach (1927) e com Collected Poems (1936). A par dessa incursão lírica, vai publicando fragmento da sua "work in progress" Finnegans Wake , que verá, em curiosa atinência com Dubliners (obra publicada no início da I Guerra Mundial, em 1914), a luz do dia no ano de 1939.
Com inconclusos 62 anos de idade, Joyce abandonou o corpo e subiu ao Olimpo. Como um eco de si, voz por sobre a morte e por sobre os tempos, um póstumo Stephen Hero (1944) relembrou, se tal fosse preciso, que o avanço da narrativa joyceana era uma revolução tão completa quanto o era a teoria da relatividade na física, ou o vanguardismo na poesia, ou o cubismo na pintura, ou o funcionalismo na arquitectura... Igual? Mais profunda, porque mais avassaladora e fundacional. A partir de si, o homem é um ser feito de linguagem, que é corpo e é palavra.
Ulysses divide-se em dezoito capítulos heterógeneos. A sua acção inicia-se às 8 horas da manhã do Bloomsday e transcorre durante mais dezoito horas. Romance da deriva da mente e da "palavra interior", a "angústia da influência" leva-nos à primigénia Odisseia que os capítulos de Ulysses permanentemente convocam.
O entrecho, se tal lhe podemos chamar, é "linear" (leia-se tergiversativo): Stephen avança da fortificação onde vive em comunidade ( a ela "não podendo voltar" por não possuir chave, depois de conversa com os seus novos possuidores), esgotando o tempo de "exílio" na regência de uma aula, na errância por Dublin e na compulsão erudita na Biblioteca Nacional; Leopold Bloom, publicitário, nesse mesmo tempo, leva o pequeno-almoço (chá e pão) à cama da sua bela e perversa mulher, sai de casa para assistir a um enterro e trabalhar brevemente, almoça, passeia pela cidade pensando no desvario amoroso da mulher, come de novo ao sabor da música, ouve um nacionalista irlandês, observa na praia uma jovem exibicionista, visita uma maternidade (onde se interessará por uma vizinha) e aí conhece o jovem Stephen, avançam ambos para os bordéis, Stephen é sovado por um soldado, Bloom condu-lo para sua casa e oferece-lhe uma chávena de cacau, antes de o despedir. Em apêndice a esta só aparente monotonia, existe um importante solilóquio de Molly Bloom, em estado de quase-adormecimento, no qual revela os acontecimentos eróticos do dia e a vida passada.
Eis o rim da literatura. E mais não digo.

sardinha session

2006-06-19

O poeta Bocage teve contacto com algum inconfidente?



Revista Nossa História, nº 32, junho 2006, p.96

Pergunta do Leitor:

“O poeta Bocage teve contato com algum inconfidente?"

Danielle Silva dos Santos, Rio de Janeiro-RJ

ADELTO GONÇALVES, professor na Universidade Santa Cecília e no Centro Universitário Monte Serrat, RESPONDE:

Sim, o poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805) teve contato com o padre José da Silva de Oliveira Rolim (1747-1835), durante o tempo em que permaneceu detido no Convento de São Bento da Saúde, em Lisboa, de 17/2/1798 a 12/3/1798 , por ordem do Tribunal do Santo Ofício. Na seção de Reservados da Biblioteca Nacional de Lisboa, pode-se ler no Dietário do Mosteiro de São Bento, códice 731, fl. 8, a anotação que o frade Dionísio de São Miguel fez, registrando a entrada de Bocage, que passaria a contar com a companhia “de seis expatriados e um preso de Estado do julgado levantamento de Minas Gerais”, o padre Rolim, que ali estava cumprindo pena havia dois anos.

Acusado de escrever “papéis ímpios, sediciosos e críticos”, Bocage foi detido a 7/8/1797 e encaminhado para a prisão do Limoeiro, onde permaneceu até 14/11, dia em que foi transferido para o cárcere da Inquisição, no Palácio dos Estaus, no Rossio, onde ficou até ser levado para o Convento de São Bento. Saindo do Convento, Bocage ficou à disposição da Intendência Geral de Polícia, que o transferiu para o Real Hospício das Necessidades, onde o poeta permaneceu até o último dia de 1798. No mesmo códice, fl. 15, pode-se ler carta em que o ministro José de Seabra da Silva mandou “alargar mais a prisão, não só do sobredito Bocage, mas também a do padre José da Silva (de Oliveira Rolim), preso de Estado, pelo bom comportamento de ambos, desde que vieram para este mosteiro”. Com o verbo “alargar”, o ministro estava apenas recomendando que se “afrouxasse” o cumprimento da pena de prisão de ambos.

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Bocage: o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

as hesitações da CIA

Divulgação 06-2006
A Questão de Olivença é reportada pela CIA ("The World Factbook") O Relatório Informativo da CIA de 2006 ("The World Factbook") dá notícia do litígio que opõe Portugal e Espanha a propósito de Olivença:«Disputes - international: Portugal does not recognize Spanish sovereign tyover the territory of Olivenza based on a difference of interpretation ofthe 1815 Congress of Vienna and the 1801 Treaty of Badajoz» ( http://www.cia.gov/cia/publications/factbook/geos/po.html ) O assunto é explicado por Carlos Luna (membro da Direcção do GAO), em artigo que se transcreve:
AS HESITAÇÕES DA C.I.A.
Tudo começou em 2003. A instituição norte-americana C.I.A. publica, desde há muito, uma espécie de relatório anual, o "The World Factbook", agora na"Internet". Esse relatório, actualizado anualmente, contém dados de todo o tipo sobre todos os países e territórios do mundo. Como estatística. Não se trata de uma selecção com intuitos políticos, ainda que, como sabemos, nada seja neutro neste mundo. No que toca a disputas territoriais, eram assinaladas mais de 160, incluindo discordâncias fronteiriças entre o México e os próprios EstadosUnidos. O que era novidade era a inclusão de mais uma disputa. De facto, lia-se, no que a Portugal dizia respeito: "Portugal tem periodicamente reafirmado reivindicações sobre os territórios em redor da cidade de Olivença (Espanha)". Claro que, no que a Espanha se referia, também era assinalada a disputa: "Os habitantes de Gibraltar votaram esmagadoramente em referendo contra o"acordo de total partilha de soberania" discutido entre a Espanha e o ReinoUnido para mudar trezentos anos de governo da colónia; Marrocos protesta contra o controle espanhol sobre os enclaves costeiros de Ceuta, Melilla, oPeñon de Velez de la Gomera, as ilhas de Peñon de Alhucemas, as ilhas Chafarinas e as águas circundantes; Marrocos rejeita também o traçado unilateral de uma linha média a partir das Canárias em 2002 para estabelecer limites à exploração de recursos marinhos e interdição de refugiados; Marrocos aceitou que os pescadores espanhóis pescassem temporariamente na costa do Sahará Ocidental, depois de um derrame de crude ter sujado bancos de pesca espanhóis; Portugal tem periodicamente reafirmado reivindicações sobre os territórios em redor da cidade de Olivenza (Espanha)". A disputa de Olivença surgia, pois, naturalmente, entre outras reivindicações ibéricas e mais de uma centena e meia de outras por todo o mundo. As reacções em Espanha, todavia, excederam o compreensível. Vários jornais noticiaram que a C.I.A. comparava Olivença a Caxemira e a Gaza, e davam a entender que a C.I.A. via movimentos terroristas (?) na Terra dasOliveiras. Chegou-se ao cúmulo de se fazerem entrevistas com autoridades locais, que troçaram da estupidez da C.I.A. e desafiaram os seus agentes aprocurar terroristas por aqueles lados. Nenhum, mas nenhum mesmo, jornal ou revista espanhóis publicou o texto original da C.I.A.! E isto apesar de todos terem recebido, repetidas vezes, o mesmo, em inglês, castelhano, português, e catalão ! O mais bizarro sucederia no ano seguinte. A C.I.A. reformulou o seu relatório, e, no que toca a Olivença, 2004 viu surgir a espantosa afirmação de que "alguns grupos portugueses mantêm reivindicações adormecidas sobre os territórios cedidos a Espanha em redor da Cidade de Olivenza". Note-se que este discurso é, quase palavra por palavra, o discurso "oficial"espanhol sobre este contencioso. Era possível, todavia, fazer pior. Em 2005, desaparecia do relatório da C.I.A. qualquer referência a Olivença. Portugal, no que toca a disputas/reivindicações internacionais, surgia classificado com um "none"(isto é, "nenhuma"; uma só palavra...talvez para poupar espaço... A bizarria ia mais longe. Um pequeno mapa de Espanha acompanhava o texto sobre este país. Pela primeira vez, Olivença surgia nele. Ao lado de cidades como Córdova, Sevilha, Granada, Madrid (naturalmente), Valladolid, e outras, todas capitais de províncias, não o sendo a cidade em litígio. Duma forma afinal cómica, o Mapa não mostrava cidades como Badajoz, Cáceres, Mérida, Salamanca, ou Pamplona. Era evidente que "Olivenza" fora incluída, digamos, "à força". O que causa espanto e indignação neste caso é a facilidade com que a C.I.A., tida como a mais poderosa e "sabedora" organização de informações do mundo, antes decerto de se informar, por exemplo, junto do GovernoPortuguês, se foi aparentemente deixando "seduzir" por pontos de vista espanhóis. Felizmente, em 2006, a situação foi recolocada em termos, em geral, correctos. Decerto "alguém" do Estado Português, verificando o erro, se deu ao trabalho de informar a C.I.A. de que Portugal mantém mesmo reservas sobre a soberania espanhola em Olivença. Recorde-se que esta questão ganhou nova importância com o Alqueva, dados os problemas ligados à posse das águas no Guadiana. Assim, desde Maio de 2006, pode-se ler na "CIA Homepage", sobre Portugal, no que toca a disputas internacionais, o seguinte: "Portugal não reconhece a soberania espanhola sobre o território de Olivença com base numa diferença de interpretação do Congresso de Viena de 1815 e do Tratado de Badajoz de 1801." No que a Espanha diz respeito, pode ler-se : "em 2003, os habitantes de Gibraltar votaram esmagadoramente, por referendo, a favor de permanecerem como colónia britânica, e contra uma solução de "partilha total de soberania", exigindo também participação em conversações entre o Reino Unido e a Espanha. A Espanha desaprova os planos do Reino Unido no sentido de dar maior autonomia a Gibraltar; Marrocos contesta o domínio daEspanha sobre os enclaves costeiros de Ceuta, Melilla, e sobre as ilhas Peñon de Velez de la Gomera, Peñon de Alhucemas e Ilhas Chafarinas, e as águas adjacentes; Marrocos funciona como a mais importante base de migração ilegal do Norte de África com destino a Espanha; Portugal não reconhece a soberania espanhola sobre o território de Olivença com base numa diferençade interpretação do Congresso de Viena de 1815 e do Tratado de Badajoz de 1801." A ver vamos se esta "versão", que é razoavelmente correcta, se mantém, e se o Estado Português estará atento a novas "alterações". Na verdade, o conflito (pacífico) fica circunscrito às suas verdadeiras dimensões: um entre outros da Península Ibérica, e entre mais de centena e meia de outros por esse mundo fora, que os interessados deverão resolver quando surgir ocasião. Como deve ser sempre. O que, afinal, já tinha sido escrito em 2003.

Estremoz, 28-Maio-2006

Carlos Eduardo da Cruz Luna

os desafios de Bento XVI por Aura Miguel



OS DESAFIOS DE BENTO XVI por Aura Miguel

21 de Junho de 2006 às 21.30 h

Fundação Eng. António de Almeida

Rua Tenente Valadim, 325 PORTO

Organização: Clube Rampa

homenagem a Humberto Delgado

Divulgação 05-2006

100.º Aniversário do nascimento do General Humberto Delgado

Na passagem do 100.º Aniversário do nascimento do General Humberto Delgado, o Grupo dos Amigos de Olivença presta sentida Homenagem ao Lutador pela Causa da Olivença Portuguesa e seu antigo Dirigente. Defensor apaixonado das causas em que acreditava, o General Humberto Delgado desde cedo manifestou a mais ardorosa determinação na sustentação dos Direitos de Portugal e desenvolveu esforços para alcançar a retrocessão de Olivença. Quando apresentou a sua candidatura à Presidência da República, em 1958, era Presidente da Assembleia Geral do Grupo dos Amigos de Olivença. Combatente da Liberdade e da Justiça, ao General Humberto Delgado não podiapassar silenciado o drama histórico que a ocupação estrangeira de Olivença significava. O seu amor à Velha Terra Portuguesa de Olivença foi das grandes motivações a que não regateou esforços. Honrando a memória do General Humberto Delgado, lutemos nós, Portugueses de hoje, tal como ele o fez, pela Olivença Portuguesa! Essa é a Homenagem que lhe devemos.

Lx., 20-05-06.

A Direcção

entendimento, imaginação & memória: a poesia lustral de Lilaz Carriço


António de Sousa de Macedo é uma figura deslembrada no nosso Seiscentismo, sendo, ao mesmo tempo, um dos mais rigorosos e completos escritores do seu século. A sua obra multímoda espalha-se por géneros e modalidades, por modos e áreas, sem que parece existir ramo do saber que lhe tenha sido desconhecido ou desinteressante.
O múnus literário e os seus afectos proporcionam muitas vezes encontros que são deslumbramentos e conversas que são sentenças e exemplários. Vem esta divagação a propósito de casual e feliz encontro com uma Autora que eu conhecia mais por razões escolares do que propriamente por motivos de curiosidade poética.
Refiro-me, obviamente, a Lilaz Carriço, mulher poeta e intelectual de rara lucidez criativa e de notabilíssima originalidade pedagógico-didáctica, como o comprovam os variados manuais escolares e os não poucos artefactos de apoio com manifesto proveito e exemplo para gerações de estudantes, professores, educadores ou curiosos da literatura e da sua transmissão. Vive hoje a insigne professora e poetisa na vila de Moimenta da Beira. Por lá a encontrei, em viagem de amizade, “discutindo”, com ilustre doutorando da nossa praça, o lugar canónico de Camões na literatura portuguesa, bem como a sua experiência vivamente acrática e arejada com o Vate nacional.
O percurso pedagógico de Lilaz Carriço é exemplar. Não avanço muito por esta via luminosa. Permita-se-me, no entanto, mais uma notícia que não quero esquecida e que se prende com a história do “Liceu de Viseu” ou da Escola Secundária de Alves Martins, instituição em que a nossa pedagoga chegou a leccionar. Explico como o acaso decide nós e laços de uma vida: a jovem professora, por volta de meados do século XX, leccionava na cidade de Viseu e por cá viu a sua fama alargada devido ao voto de louvor exarado em acta, já em Lisboa, pelo inspector que lhe assistira a duas aulas. O metodólogo chamava-se Acácio de Gouveia e Sousa e era meu tio. Soube-o há tempos como se facto moderno e há pouco ocorrido!
Lilaz Carriço não possui ainda uma obra poética extensa. Nem a prolixidade é propriamente uma característica que ateste qualidade ou falta dela. Continuadora de uma linhagem de pedagogos-escritores que Emanuel Paulo Ramos elenca na “Nota Preambular” à primeira colectânea artística de nome Arco-Íris Poético (1988) – e acrescentar uns tantos é tarefa fácil: Carlos de Lemos, Roberto de Mesquita, David Mourão-Ferreira, Eugénio Lisboa, Gastão Cruz, António Franco Alexandre, Rui Magalhães, Luís Miguel Nava, António Gil... -, os sobejantes livros publicados pela poetisa, Miragem no tempo (1990) e No Labirinto da Vida (1991), ambos prefaciados por Eunice Ribeiro, fecham para já uma tríade que subsumo aos vectores entendimento, imaginação e memória, feixes iluminantes de toda a criação lilaziana.
Passo a explicar e conecto este passo ao parágrafo inicial: do mesmo modo que é estranho o descaso a que tem sido votado António de Sousa de Macedo, um dos escritores mais completos do nosso Seiscentismo, é também profundamente injusto que a poesia de Lilaz Carriço, mostrada ao público a partir de finais da década de oitenta e desde há muito iniciada no verso clandestino, como o comprovam, aliás, a datas de muitos poemas, esteja, não obstante a sua juventude, praticamente deslembrada das conversas literárias. Silenciosamente, em coonestação clara de qualidade estética, já não vai sendo fácil adquirir os títulos da escritora da palavra lustral.
O soneto é a forma poética que Lilaz Carriço privilegia, deixando-se enlevar pelo sopro classicizante de que quase nunca prescinde. Leitora competentíssima da literatura portuguesa e não só, habilitada como poucos por utensilagem teórica e histórico-literária favorecedora de seguros actos hermenêuticos, perpassa na poesia lilaziana toda uma panóplia de eufonias e de motivos que são contaminação e originalidade. Adianto algumas constantes transculturais que não denegam a influência e que logo deflagram novas produtividades: refiro-me, por exemplo, à fluidescência da vida e à uita breuis, à aura camoniana, pessoana, florbeliana, junqueiriana ou de efeméride (“Ao Prof. Dr. Francisco da Luz Rebelo Gonçalves”, e. g. ), o dialogismo com as artes plásticas e os seus fautores, as mitologias operativas da antiguidade (“A música de Orfeu vai embalando”) e da história de Portugal (“D. Teresa”, “D. Afonso Henriques”, “D. Dinis”...), o horacianismo (“Sicut apicula”), o arrojo sensual à Judith Teixeira (“Perfil crioulo”), a reflexão metaliterária (“A poesia é som nunca presente”), o vezo heraclitiano (“Temos todos, na vida, dois caminhos”), a tutela maternal (“Latente no meu ser uma verdade”), o fascínio Mariano (“Ave! Maria”), a desilusão amorosa (“Beijo”) ou o erotismo flagrante (“Os teus lábios, sedentos do meu ser”), constâncias estas que, escritas entre 1944 e 1988, para uma primeira colectânea poética, provam ser Lilaz Carriço uma poderosa voz enformada na tríade entendimento-imaginação-memória. Siga o leitor os dois caminhos outros que deixei intocados.
Ergue-se assim, lustral, cada verso lilaziano. Afirma-se no seu rumor um lampejo que é um invulgar repositório da nossa memória cultural. Como desejar mais?

2006-06-18

Santa Maria da Terra

No dia em que Maria nasceu, sem porquê nem quê, a terra deu de sangrar lá no Grotão das Moscas, onde penavam as carcaças dos desvalidos e amaldiçoados. Lugar seco, cruel e malvado, renegado até pelo Diabo.
Maria nasceu bem na risca que separava o mundo dos vivos do charco dos assombrados. Nasceu de vida morta, de uma vagina seca que nem o chão a queimar a sola do cortejo que acompanhava o cadáver. Nasceu embrulhada em dois embrulhos: uma caixa de ossos descarnados e uma rede poída, rota e encardida.
Parida sem contrações nem berro, Maria brotou no mundo bem no instante em que a primeira pá de terra seca foi lançada na cova. Brotou assombrada, sem susto, em meio a ladaínhas e velas.
Talvez pelas chagas do Cristo da mãe ou pelo pouco de placenta que restara, a terra sangrou justo na hora em que Maria ia ser com a mãe enterrada.
Não sei se por crença num Deus que por eles não velava ou por medo de um Capeta que os renegava, o povo deu à Maria o nome da Terra.
Como não nasceu filha de Deus nem enteada do Diabo, Maria cresceu sem milagres. Por falta de um pão que servisse de molde não o multiplicou e por excesso de mortos não teve tempo para ressucitá-los. Mas conheceu o calvário de perto, com os olhos que a terra há de comer.
Seja pela ausência de milagres ou pela carência absoluta de maldade, Maria cresceu tão comum que um belo dia ficou invisível como a gente do seu povoado.
Embora nos contos de fadas a invisibilidade seja um poderoso instrumento mágico, para Maria era corriqueirice mesmo. Era o estado máximo de uma vida desnotada, em branco, daninha como o mato.
E assim invisível Maria da Terra foi erodindo e secando o pouco de água que tinha. Não deu frutos, não pariu rebentos, não brotou na primavera nem germinou no inverno. Penou calvários sem cruz, mas munida de enxada.
Tal qual erva daninha que toma conta de terra ociosa - que de tão ociosa só serve para alimentar o gozo de quem a possui -, Maria, sabe-se lá por quais artes de quem, um belo dia pariu um milhão de larvas.
Não sei se por carência de mãe que ensinasse as coisas de mulher ou se pelo estado comum de substantivo sem gênero, Maria confundiu as larvas com filhos. Alimentou-as com o pouco de pirão de farinha que tinha e amamentou-as com as lágrimas da humilhação.
Quando as larvas atingiram o tamanho certo para arar a terra que não era de Joana, nem de Pedro, nem de José, nem de Severina, nem de Antônio, nem de Raimundo, nem de Donana e sim de um alguém que de tão visível nem precisava aparecer, Maria deu uma enxada e uma foice para cada filho.
Na invisibilidade comum dos assombrados, ninguém se assombrou com as larvas a arar a terra. No roçado não havia lugar para os assombros e o horror e a morte conviviam em assombrada comunidade.
O Tempo foi escorrendo entre os calos das mãos de Maria da Terra até que um dia, sem ser convidado, adentrou pela casa acompanhado da Morte. Maria não se avexou pela miséria da casa e repartiu com as visitas o pouco de vida que ainda tinha.
Maria morreu assim que os visitantes tomaram o rumo do Grotão das Moscas. Na manhã seguinte foi outra vez embrulhada em dois embrulhos: uma caixa de ossos descarnados e uma rede poída, rota e encardida.
Sete dias após os vermes terem comido o pouco de carne que tinha, Santa Maria da Terra fez o primeiro milagre: no roçado, as larvas criaram asas e viraram borboletas.
Não sei se pela santidade do milagre ou se pelo pólem que as borboletas espalharam no ar, os olhos do povo invisível olharam e se reconheceram no olhar do outro, se viram belos, viram a terra que era de todos e descobriram que tinham asas para voar.
As borboletas? Ah, essas andam voando livres pelos campos e estradas, espalhando o pólem da visibilidade e agitando as asas em coloridas bandeiras, embora alguns cismem, por comodidade e insensibilidade social, em confundí-las com vândalos e baderneiros.

Marcia Frazão

cultura zero

Ao me olhar no espelho, enquanto escovava os dentes e matutava como cobrir o furo da conta no banco, me dei conta de que faço parte de uma classe tão desvalida quanto a dos desvalidos. Num jorro de água a ficha caiu: o beco da cultura não fica a dever nada ao beco da miséria! Enquanto caçava cáries no fundo da boca, morrendo de medo de me deparar com uma e ficar banguela por não ter grana para ir ao dentista (no beco da cultura, plano de saúde é apenas mais uma discussão teórica), espichei a memória e contei os mortos e feridos dessa classe que tem a estranha mania de sublimar a tristeza e transmutá-la em beleza. Lembrei-me das dores e dos padecimentos financeiros de Freud e um frio me percorreu a espinha: o pai da psicanálise era um masoquista! Se não fosse, não queimaria as pestanas em pesquisas que mal davam para pagar o aluguel da casa. Depois de ter constatado que um dos maiores baluartes da cultura praticamente viveu a vida toda de favor, o frio da espinha tornou-se gelo quando olhei para os lados e percebi que os tempos eram outros: já não existem ricos amantes das belas artes e os emergentes não financiam a cultura e se lixam para ela! A esta altura, o furo da conta se tornou um buraco. Uma cratera cheia de dentes numerados, à espera de mais um funeral. Pensei em cortar os pulsos, mas rapidamente me lembrei das palavras de Dorothy Parker (outra que penou bons bocados) que sabiamente apontou a sujeira que tais suicídios costumam deixar nos tapetes. Bem verdade que não tenho nenhum tapete, mas desisti só de pensar na possibilidade de escapar e depois ter que limpar tudo (mancha de sangue dá uma trabalheira!). Com o último dente escovado e aliviada por não ter encontrado nenhuma cárie, esqueci da buraqueira na conta bancária, dos insensatos planos de suicídio e tomei uma decisão digna do masoquismo do beco da cultura: comecei a escrever um livro! Uma decisão que dá de mil em qualquer modalidade de suicídio.

Marcia Frazão

proveito e exemplo em Gonçalo Fernandes Trancoso






0. Um tanto à maneira de Paul de Man[1], gostaria de dizer, nesta abertura ainda solene, que todo o interesse que manifestamente tenho (ou penso ter) pela circunstância e coisa literária – e o mesmo é dizer pela crítica, ensino e “ciência” dela- me advém dos textos literários, dos textos primários, que recriam fulgurantemente uma matéria-prima chamada língua.
No passo seguinte, afirmo também que nós, alunos, professores e formadores, vivemos da e para a literatura e nem sempre na literatura, ainda que por lá possamos andar, sempre que “escritores” ou “leitores de dentro”. As duas primeiras palavras prepositivas sugerem uma via profissional e um missionarismo pouco integráveis na genialidade literária; ao contrário, a última inocula uma familiaridade, um laço essencial, do foro compositivo e hermenêutico que não pode ser denegado – e a criação subjaz sempre ao textos críticos, segundo penso, não sendo apanágio privilegiado da literatura e dos seus modos. Tal questionação da interioridade e da exterioridade literárias coloca em crise, pelo menos no segundo caso, a possibilidade do ensino da literatura[2], que deve ser lida como artefacto mostrativo.
Muitas das vezes, o didactismo literário arvora-se (alguém por si, diga-se) em “saber absoluto” que não deixa lugar para a interrogação, não valendo aqui desenvolver casos sobre crianças e jovens que pouco privaram com as obras de arte literárias e muito leram de súmulas e esquemas didácticos, com manifesto proveito escolar, que não outro. A literatura luta, assim, contra o fictivo resultado escolar. Mas, pergunto-me eu, a quem serviram essas ensaboadelas nas margens da “coisa literária”? Saberemos nós, professores, distinguir, no acto avaliativo, o leitor de literatura e o leitor de paráfrases e esquemas? Saberemos nós ser ou ficar-nos-emos pelo parecer? Não será fraude intelectual falar do que não se leu? Poderá alguém, por exemplo, falar com propriedade de uma obra musical sobre a qual tão só leu mas nada ouviu? Terão essas crianças e jovens, que não leram o objecto literário e que obtiveram prémio avaliativo, crescido e ganho competências de leitura e de inferências dela?
Foi um Giordano Bruno (Nola, 1548-Roma, 1600), que pagou com a vida o apego à urgência do pensar, quem colocou este problema do totalitarismo sapiencial de forma límpida. Diz o filósofo italiano, personalidade coeva de Gonçalo Fernandes Trancoso de que falarei à frente, tipificando essa epidemia cultural do “parecer”: “Espíritos sórdidos e mercenários, que, pouco ou nada preocupados com a verdade, se contentam com saber aquilo que geralmente é considerado o saber, pouco amigos da verdadeira sabedoria, sedentos de fama e do desejo de ser considerados na posse daquela, ansiosos por parecer, pouco se preocupando com ser...”[3] . Aliás, ainda recentemente, em polémica cultural que sazonalmente varre o nosso país, uma Rita Ferro, pese embora todo o peso intelectual, especializante e institucional de Carlos Reis, sustentou ler Os Maias de forma diversa da do Professor de Coimbra e nada ligar à sua exegese esquemático-didáctica.
Nada interessa, pois, um didactismo castrador, muito interessando uma didáctica mostrativa, que permita, na subjectividade construtiva de cada leitor, um mais amplo conhecimento do sangue das palavras, que é, em imagem influenciada, sem angústia, som e fúria, imagem e cor, perfume e vulcão da pele. Desta promoção das palavras ao rigor dos sentidos, resulta uma clara presença da vertente didáctica e paidêutica do texto literário, o que é corroborado, por exemplo, por Luísa Dacosta, quando, há alguns anos atrás, disse que Sá de Miranda, Nicolau Tolentino, Cesário Verde, Camilo Pessanha e Cecília Meireles lhe ensinaram a usar “muitas vezes a palavra pelo som, pela visualidade, pela cor, pela textura, peso ou leveza”. [4] Esta transmissão primigénia e anterior, esta atenção à música das palavras e à força presente nas obras literárias, resulta de um amor que nos acompanha desde o berço e desde aí se firmou em adesão afectiva. Ler passa a ser, desde então, respirar.

1. A literatura para crianças e jovens é uma “ilha fantástica” à qual é preciso chegar. Importa que o leitor cedo parta, interessa que o educador olhe distante e sempre vigilante. O estímulo é a palavra certa sobre um mundo que o jovem sorveu voraz. O pequeno leitor escolhe a sua ilha, ele que consigo transporta uma “ilha” de sortilégio. O adulto deve ele próprio interessar-se e falar das suas leituras e sugerir outras rotas e deixar-se arrastar pela força das águas da curiosidade que existe em cada ilha e em cada criança já nessa “ilha fantástica”. O resto, nova partida, outras chegadas, é tão-só a pulsão de uma leitura enraizada, próxima da respiração, que diz no cólofon de cada texto que vale a pena partir e que várias serão as chegadas, se valer a pena chegar.
Baralho e dou de novo, repetindo. A textura física e semântica da palavra ‘ilha’ é facilitadora, desde logo, desta ligação ao mundo infanto-juvenil, nomeadamente pela sugestão directa do fantasioso e do quimérico, qualidades que enformam o mundus de crianças e de jovens. Mas não só. A ilha é sonho e sofrimento da literatura de todos os tempos e lugares. Provoca ainda um espaço de evocação que é halo de mistério indenegável. Tal tonalidade penumbrosa e estranhizante–cativante é apanágio da homérica ilha dos Ciclopes, da fugaz ilha de Topázio da História Natural de Plínio ou da consabida e desafortunada ilha Perdida de que nos fala, verbi gratia, Gil Vicente. E depois há toda uma atmosfera sinistra em muitas delas, seja pelo perigo dos seus contornos, seja pela tectónica vulcânica, que indubitavelmente nos leva ao “pestanejamento” de Georges Steiner – como não lembrar, num misto de terror e de pulsão, a platónica e infeliz ilha Atlântida, a ilha-namorada do capitão Nemo d’ A Ilha Misteriosa de Júlio Verne ou a fantástica ilha de seres impensáveis de The Island of Doctor Moreau (1896)?
Sem corte, com sutura, vemos ainda nessa palavra ‘ilha’ um nimbo de superioridade e de força mágica. E, de facto, em ilhas nasceram notáveis seres mitológicos como o cretense Zeus, a citéria Afrodite ou o brilhante Apolo, natural de Delos. Imaginárias umas vezes, mais reais noutras, paradisíacas algumas, infernais umas quantas, quem resiste ainda aos encantos da mediévica ilha de Avalon, fiel depositária do rei Artur, ou a tantas recriações insulares da literatura de todos os tempo e lugares? Quem permanece indemne a esta atmosfera que paira no ar à espera do nosso sonho?
A literatura é esse sonho. É nessa senda que se despenham criador e eco da coisa criada. E a ilha, essa fulguração de atracção e superação, em toda a obra habita como um corpo totalizador. Assim acontece com a literatura “pairadora”, colhida nas vozes reprodutoras, em caldeamento oralizante, com muita produção que gente miúda e gente graúda não deixa de conhecer, por leitura directa ou por incorporação ocasional. Cito ainda, neste movimento motivemático, outras ilhas e outros voos com palavras aladas. Sem exaustão, vem à memória a ilha Utopia da homónima de Thomas More e os seus habitantes bem educados, vivendo comunitariamente e infensos à dor pela eutanásia, nesse não-lugar habitável pelo poder da imaginação. Neste contexto de utopismo insular, chamo também à colação a Cidade do Sol, ideada por Campanella em 1602, na mítica Taprobana, ou, em matiz similar, a ilha de Bensalém de New Atlantis (1627)de Francis Bacon.
É de ilhas e de conquistas que vou falando. Avanço. Um livro que fácil e prazenteiramente foi conquistado por crianças e jovens, pese embora o seu tom filosofante, foi aquele livro que conta a história do fantástico Robinson Crusoe e que Daniel Defoe publicou em 1719, com as aventuras de Selkirk na ilha de Juan Fernández. Outras ilhas existem: a “ilha Namorada” de Camões, as ilhas encantada e do Pranto do Orlando Furioso (1516) de Ariosto. Fantásticas e infungíveis são ainda as aventuras de Gulliver nas ilhas Balnibarbi, Blefescu, Laputa, Liliput e Luggnagg, tão de todos, da autoria de Jonathan Swift. É também o viseense João de Barros, na sua Crónica do Imperador Clarimundo (1522), quem abre o caminho ao fantástico e ao possível com as suas ilhas do Abismo, afumada, do Alto Pináculo, Abundante, Bem-Aventuradas, Deleitosa e outras. E nem poderá faltar aqui, nesta incursão rápida pelo motor insular de mundos possíveis a haver, a possibilidade que Cervantes reserva ao seu Pança de poder governar a ilha da Barataria. É este o poder das palavras no turbilhão da imaginação.

2. O tema da criança e a sua ideia como evasão ou passado obsidiante, como crítica ou ponto nodal do desenvolvimento, têm a idade da palavra e o afecto da literatura de sempre. Não há autor, nem leitor que o desmintam. E, de facto, desde a aparentemente longínqua Comédia de Rubena (1521) de Gil Vicente – dramaturgo que jubilosamente celebro aqui na juventude dos quinhentos anos do seu Monólogo do Vaqueiro– até incrustações posteriores que passam por Menina e Moça de Bernardim Ribeiro, pelas confissões maravilhadas de Almeida Garrett a respeito dos velhos tempos de criança ouvindo as encantadas histórias da criada idosa; pelo desencanto de Eça de Queirós nas Cartas de Inglaterra ao reparar que um vazio de acção recobria a actividade editorial no nosso país no respeitante à literatura infantil; chegando-se, por último, a toda a tematização de ambiências infanto-juvenis e adolencentes que percorre a nossa literatura portuguesa do século XX e dos tempos novos. E lembro, por exemplo, romances de formação como Uma Luz ao Longe de Aquilino Ribeiro ou Manhã Submersa de Vergílio Ferreira; recordo ainda o mergulho na infância e na adolescência levada a cabo pela maior parte dos escritores presencistas e afins (Régio, Casais Monteiro, Gaspar Simões, Branquinho da Fonseca, Tomaz de Figueiredo, Marmelo e Silva...); avoco também, nesta perquirição pelo mundos criados de incidência infanto-juvenil, os sentidos poemas dedicados às mães[5] ou destas decorrentes em emoção (de um Fernando Pessoa: “Lá longe, em casa, há a prece: / <> / (Malhas que o Império tece!) / Jaz morto, e apodrece, / O menino de sua mãe.”; de um Almada Negreiros: “Mãe! passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade.”; de uma Judith Teixeira: “Fecha a janela, Mãe! Vem-me cobrir. / Mãe! sinto frio, até no teu olhar! // Mãe! quero regressar – voltar ao Nada - / e perder-me na grande Escuridão!”; de uma Florbela Espanca. “Ó Mãe! Ó minha Mãe, pra que nasceste? / Entre agonias e em dores tamanhas / Pra que foi, dize lá, que me trouxeste”; de um Sebastião da Gama: “Pra que o dia fosse enorme, / bastava/ toda a ternura que olhava / nos olhos de minha Mãe...”; de um José Régio: “Já tenho três maços, Mãe, / Das cartas que tu mês escreves / Desde que saí de casa...”; de um Vergílio Ferreira: “Espera aí ainda um pouco. Ouve aí. É um momento. / Agora que viraste costas definitivamente / e arrumaste a vida, para ires ter com o velho Pai, / que eu estou a ver daqui já impaciente pela demora, / veio-me uma necessidade bruta de te dizer duas coisas / que nunca calhou dizer-te.”; de uma Maria Judite de Carvalho: “Inventei-te para mim nocturna e mansa / e dei-te o olhar negro e tão parado / com que velavas meus sonhos de criança / sem estares ao meu lado”; de um Eugénio de Andrade: “Não me esqueci de nada, mãe. / Guardo a tua voz dentro de mim. / E deixo-te as rosas. // Boa noite. Eu vou com as aves.”; de uma Maria Alberta Menères: “Mãe rosa desnudada / pétalas de sangue evoluído / ficou a tua onda ondeada / Mãe do rosto dormido?”; de um José Manuel Mendes: “eras a mais pura fala / do silêncio: / rumor; manhã / nas nervuras / da folhagem”; de um Vasco da Graça Moura: “E não queria ser vista e foi envolta / num lençol branco em suas dobras leves. / Pus junto dela algumas rosas breves / e a lembrança represa ficou solta”; de um António Franco Alexandre: “Vejo a pequena terra em que nasci / o sossego das grandes chuvas desabando no pátio e o respirar da casa / o rosto de minha mãe”; de um Luís Miguel Nava: “De astros / as ruas eram cheias que os cuspiam hoje / na minha mãe de outrora, nas crianças de água”; e, por último, desse fugidio cometa das nossas letras, de nome Daniel Faria, que os tempos encaminharão para lugar central na literatura portuguesa, e que diz como só ele poderia dizer esse fascínio de lugar temático que é a presença da mãe como sujeito e objecto literário do nosso imaginário: “O filho é o carrossel à volta da mãe / O carrossel no coração da mãe / A luz dos carrosséis e a música / E leva a mãe no seu cavalo.”).

3. Em 1894, Stéphane Mallarmé realizou, em Oxford, uma conferência que deveio célebre. Refiro-me à consabida “La Musique et les lettres”. E as primeiras palavras do notável poeta não deixam de ser apelativas. Cito: “Trago-vos com efeito notícias. As mais surpreendentes. Nunca se viu coisa assim. Mexeram no verso... On a touché au vers.”[6]
Assim modestamente vos digo eu também trazer notícias surpreendentes sobre um autor de nome Gonçalo Fernandes Trancoso, quase desconhecido, que nos obriga a algumas arrumações no âmbito da literatura para a infância e juventude e não só. E se tal acomodação pode passar pelo estabelecimento do termo a quo da literatura para gente mais nova a partir de si, avanço ainda que as suas histórias escritas no quinhentismo português são produtos literários de proveito e exemplo à espera da curiosidade dos mais diversos leitores.
Mas, quem foi Gonçalo Fernandes Trancoso, para que valha a pena falar dele? Nascido em finais da segunda década do século XVI, provavelmente em Trancoso, sabe-se pela sua obra mais conhecida (1575) que morou em S. Pedro de Alfama. Vivendo em Lisboa ao tempo da peste de 1569, só a custo resistiu ao cataclismo que lhe dizimou a família: “perdi no terrestre naufrágio uma filha de vinte e quatro anos, que em amor e obras me era mãe; um filho estudante; um neto moço do coro da Sé. E para mais minha lástima, perdi a mulher, que por suas virtudes era de mim amada, o que foi causa de grande tristeza minha.”[7]
A tragédia moral que por sobre si se abateu espoletou-lhe o gosto pela redacção de contos, que, influenciados pela tradição italiana de Boccaccio e Sacchetti, entre outros, bem como pela oratura nacional, lhe serviam “por fugir daquelas tristezas”.
A popularidade da sua obra é bem visível na justa e bem merecida fama que conquistou, tendo sido um dos escritores mais lidos do século XVI ao século XVIII, espaço temporal em que imprimiram dezasseis edições, o que atesta a adesão de público aos seus contos exemplares e apotegmáticos com as raízes atrás assinaladas e natural decorrência do quatrocentista Orto do Esposo.
Não obstante as vozes dissonantes, parece-me certo que estes contos de Trancoso, até pela adjectivação que promovem (populares, edificantes, sobrenaturais, vivazes, originais, curiosos, singelos, fantásticos...), devem ser inseridos na fase formativa da chamada literatura para a infância e a juventude. Aliás, relembro um aspecto biográfico que não mencionei que se prende com a possibilidade de ele ter sido preceptor de meninos e mestre de Humanidades (Latim e Retórica) e que certamente terá interferido na sua criação literária.
Inaugurador entre nós do conto e, segundo João Palma-Ferreira, “caso único na literatura portuguesa do século XVI”, a influência de Gonçalo Fernandes Trancoso terá sido tal que no Brasil chamam “histórias de Trancoso” àquilo a que nós chamamos “histórias da Carochinha” e, no primeiro quartel do século XX, um Agostinho de Campos di-lo “o avô rústico que conta histórias aos meninos”.
João Gaspar Simões vê em Trancoso “um autêntico aedo popular”, contribuindo para o seu carácter atractivo a simplicidade de redacção, a coordenação predominantemente sindética, a utilização de provérbios e anexins, bem como o ingénuo realismo.
Coevo de um importantíssimo conjunto de vultos literários (Camões, Bernardim, Cristóvão Falcão, Sá de Miranda, António Ferreira, Diogo Bernardes, Frei Agostinho da Cruz, Gil Vicente, João de Barros, Diogo do Couto, Damião de Góis...), o que justifica, até certo ponto, a sua ocultação, Gonçalo Fernandes Trancoso virá a falecer no penúltimo lustro do século XVI.

4. Como atrás disse, trago-vos notícias surpreendentes: Gonçalo Fernandes Trancoso é o nosso primeiro ficcionista utilitarista e cibernético (de acordo com o grego, κυβερνητική, cibernética, é a arte de governar os homens), com um inusitado vezo de “observação psico-social”. Próximo da ambiência criada por Gil Vicente, dele se destaca pelo teor paidêutico e directivo. Mas debrucemo-nos, para terminar, sobre um dos seus contos e destaquemos nele algumas qualidades que o tornam inserível no âmbito da literatura para gente mais nova.
Como se sabe, o conto, pese a sua antiguidade e peso tradicional, só adquire configuração literária no século XIX. Até aí a fluidez entre o oral e o literário era indesmentível. Tal facto só abona Trancoso, tanto mais que ele supera influências e incorporações folclóricas por uma originalidade que não pode ser denegada. E assim poder-se-á dizer que o conto autoral português nasce com Gonçalo Fernandes Trancoso – na sua criação contista encontramos já as características do conto moderno, e falo do halo fantástico, da estrutura febril, nervosa e breve, e das descargas emocionais por si provocadas, num processo de concentração que confere ao texto uma matização semipoética.
O investigador francês Marc Soriano defende ser a literatura a juventude um tipo de comunicação entre um locutor ou um escritor adulto e um destinatário criança. Não parece que o espírito de Trancoso descurasse essa particularidade, como o corrobora, por exemplo, o já citado Agostinho de Campos. E se pensarmos na tentativa de definição do literatura infanto-juvenil por parte de Judith Hillman, vemos que ela, no que diz respeito ao conteúdo, sugere o perspectivismo infanto-juvenil, a incipiência caractereológica, a intriga simples com centramento na acção, o happy-end e a mistura do real com o fantástico; já no atinente à qualidade, e ainda segundo a mesma autora, deverá ela estar presente como factor preponderante do prazer do texto. A necessidade do preceito qualitativo já fora enunciado trinta anos antes por Sophia de Mello Breyner em entrevista ao Diário de Lisboa. Trancoso tem, neste sentido, uma evidente qualidade.
O conto em que vou pegar, o décimo, integra-se, de acordo com a proposta de Câmara Cascudo, nos chamados contos de exemplo, sofrendo ligeira nuance se se adoptar a classificação de Michelle Simonsen que prescreve para este tipo a designação de conto moral ou filosófico. Transcrevo o conto, para que conste:

CONTO X

Que nos mostra como os pobres com pouca coisa se alegram. E é um dito que disse um homem a seus filhos.

Perto da cidade do Porto, onde chamam Paço de Sousa, havia um pobre homem que tinha seis crianças entre filhos e filhas, de que alguns eram de dezassete ou dezóito anos e dali para baixo. E tendo-os derredor de si, um serão, sobre ceia de boroa e castanhas, derredor do lume, muito contentes, olhou para eles e viu-os tais que o melhor arroupado, se tinha camisa, não tinha pelote e, se pelote, sem mangas; e se mangas, sem fralda, e todos descalços e sem barrete nem coifas. Assim que todos seis se cobriam com fato que, para bem, não bastava a um e esse muito velho e esfarrapado que quase não prestava. Vendo-os tais, disse à mulher:
-Ouvis! Lembre-vos amanhã (se Nosso Senhor quiser) que peçais à minha comadre Briolanja de Paiva uma quarta de linhaça emprestada. Semeá-la-emos e, com a ajuda de Deus, haveremos linho de que façamos, no Verão, caçotes para estes cachopos.
Os filhos, tanto que o ouviram, saltando no ar, com muito prazer, diziam uns aos outros, rindo: - ", como se sentem vestidos, não há quem possa com eles. "

Espanta desde logo, neste conto susceptível de ser anexado ou conquistado por gente miúda, o carácter condensado, directo, próximo mesmo da noção do miniconto que um Sebastião Resende “teoriza” do seguinte modo:

... minipoema, minicrónica, mini-romance, poli-mini ou minitudo. nunca menos. abrangente e variável como as mudanças de nosso tempo, instrumento maleável, conciso, objetivo; sintético, cioso de sua funcionalidade, aqui-agora, lá-sempre, ubíquo, polivalente, verbivocovisual. com ele sentir e ver o mundo sem desperdícios e derramamentos. formalização das coisas com um mínimo de formas, um nada de fórmulas e um todo de formular, tecnificar. arte para um tempo de sustos, de síncopes, porém feita com suor + palavras + lágrimas, para sintetizar o humano, o não-humano e o que há de vir. close-up. underground. fotografia tirada com os olhos e o ser. miniformal, maxi-elaboração e vida. na época dos sintéticos e das sínteses. do microfilme. da pílula. dos comprimidos e das compressões. [8]

fTal modernidade é ainda detectável na lógica e na consistência do exemplar narrativo, que, a par disso, contém ainda postulados importantes como a clareza e a simplicidade gramaticais, a utilização de palavras concretas ou o carácter mostrativo, dignas qualidades de um texto infanto-juvenil. Acresce ainda que o conto de Trancoso é capaz de despertar valores para o embate social, é sugestivo de beleza estética (as repetições e o polissíndeto conferem-lhe mesmo aquela força patética própria dos textos poéticos de que tão exuberantemente fala Jean Cohen...), é indutor da realidade de forma subtil e é elemento de desenvolvimento da capacidade expressiva do leitor, seja no domínio lingüístico, seja na esfera cultural. Cite-se, por último, o inusitado final do conto de Fernandes Trancoso, que é um verdadeiro despiste do horizonte de expectativas criado. Afinal, o antegozo das roupas futuras é a clara sugestão do inesperado. Esta estranhização é uma porta para a dinamização da força imaginativa do leitor mais novo e para os seus actos de integração simbólica, assim se cumprindo a função socializadora da literatura.
Avanço mais. Toda a literatura estimável é tão-só literatura. Não me parece muito importante a divisão, que muitos ainda teimam em acentuar, entre literatura para crianças e literatura para adultos. A literatura existe perto da vontade de todos leitores sem idade. Os melhores textos serão sempre aqueles que, como os citados de Trancoso, possibilitem vários planos de leitura. Como o acentua Sophia de Mello Breyner desde a década de 60, escrever para crianças não é uma especialidade e a divisão divisada no espectro editorial radica no acto comercial e nunca no acto criativo.
Aproximemo-nos do calor das palavras, esperando, na radicalidade racionalista de Boileau, que, independentemente da temática literária, sempre o bom senso se combine com a rima. Enquanto tal acontece, esta súbita primavera teórico-pedagógica sugere-me, caros amigos, um rumor junto à voz de António Franco Alexandre que conjuga o sinal mudo com a vossa aceitação destas banalidades antigas como o mundo. Pode ser?

[1] Cf. Paul de Man, O Ponto de Vista da Cegueira. Ensaios sobre a Retórica da Crítica Contemporânea,, Lisboa, Braga – Coimbra – Lisboa, Angelus Novus, 1999, p. 9. No “Prefácio” à 2ª edição revista de Blindness and Insight. Essays in the Rhetoric of Contemporary Criticism, em luminosa tradução de Miguel Tamen, Paul de Man confidencia: “O meu interesse pela crítica está subordinado ao meu interesse pelos textos literários, pelos textos primários.”
[2] A este propósito lembro, lembro as judiciosas palavras de Manuel Frias Martins influenciadas por Northrop Frye: “O chamado ‘ensino da literatura’ existe e deve continuar a existir no quadro mais geral de valorização daquilo que é ainda conhecido por humanidades. Mas engana-se quem julga que a literatura pode ser ensinada. A literatura pode e deve ser estudada e compreendida na lógica própria do funcionamento da composição literária.” (Matéria Negra. Uma Teoria da Literatura e da Crítica Literária, Lisboa, Edições Cosmos, 1993, p. 231.). Relembro ainda as reticências colocadas por Aguiar e Silva e outros relativamente ao ensino da poesia, no inquérito temático “A Poesia no Ensino”, que em boa hora a revista Relâmpago (nº 10, 4 / 2002) trouxe a debate.
[3] Cf. Giordano Bruno, Sobre o Infinito, o Universo e os Mundos, São Paulo, Nova Cultural, 1988.
[4] Ernesto Rodrigues, “DACOSTA (Luísa)”, in Biblos. Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, vol. 2, Lisboa, Verbo, 1997, cols. 1-2.
[5] Para não sobrecarregar o texto com notas e citações, opto por não identificar os excertos.
[6] Apud Paul de Man, op. cit. , p. 37.
[7] Cf. prólogo-dedicatória à avó de D. Sebastião citado por João Palma-Ferreira, no importante prefácio a Contos e Histórias de Proveito e Exemplo de Gonçalo Fernandes Trancoso (Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1974, p. XVI).
[8] Sebastião Resende, “Apresentação”, in Cadernos 20 , Minas Gerais, Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Guaxupé, 1971.