2017-09-28

poema para fernando mouga: viseu, 1949




poema para fernando mouga: viseu, 1949

nas margens do tempo, dentro da luz,
há gavetas, arquivos, cintilações, assombros.
talvez uma flauta imaginante, de alados dedos,
pudesse ferir esta memória, torná-la jardim
e chão de terra perante os olhos levantado.
vibrante o mundo parado espera. na coroa
opaca do dia há um encontro em julho,
uma pétala de missão na sombra do sangue:
álvaro cunhal caminha para fernando mouga
neste  viseu de 1949 em busca de uma imagem,
de uma fotografia sua para escrever um rumo.
mas antes houve um abraço, um mar alto…
era necessário encontrar na cidade um fotógrafo
e mouga à rua saiu neste dia assim como breve rosa
procurando o lugar, com cunhal no clube de viseu
e as vimeiro com salsaparrilha no hálito de ambos…
da conversa com o fotógrafo germano o assombro,
uma rosa vermelha nesta terra antiga: fazer era fazer.
mouga e cunhal reencontram-se e vertiginoso farão,
nos abismos do dia, um caminho de uns quantos metros,
distanciados ambos, pela rua dita formosa e principal.
esta rosa, esta memória deflagrante escreve-se no fogo.

2017-09-19

O futuro de Aquilino - a premonição de Almeida Azevedo


Beijando a mão de Sua Majestade O Rei, O Senhor Dom Manuel II, António Emílio de Almeida  Azevedo, em carta emanada do Juízo de Instrução Criminal de Lisboa, em 13 de maio de 1910, oferecia-se para ir a Paris interrogar o emigrado Aquilino Ribeiro. Assim diz o ilustre magistrado:

«Vossa Majestade quere que eu vá ámanhã a Paris falar com o Aquilino? Por êste, sim, podemos saber tudo.» [sic]

É uma premonição fantástica, esta, a de Almeida Azevedo - afinal, como não entrever o fulgurante múnus atirado contra os nossos olhos. Vamos juntos, leitores, e mergulhemos na literatura de vastos horizontes.

Prémio Aquilino Ribeiro 2017


2017-09-16

Aquilino e Luandino - um encontro sem distância

[Fotografia do jornal Público]


Quando Aquilino Ribeiro, correndo o ano para 1951, fixava no capítulo XV da sua magnífica Geografia sentimental (História, paisagem, folclore) uma fulgurante síntese vivencial na última titulação capitular - refiro-me à legenda "O regresso à condição" ( Op. cit., Lisboa, Livraria Bertrand, 1951, p. 275.) - não sabia ainda da glória desse conjunto, nem tão pouco que alguns anos à frente, cerca de dez, Luandino Vieira glosaria tal referência naquele «esse regresso à sua gente» (José Luandino Vieira, Nosso musseque, Lisboa, Caminho, 2003, p. 18.), em texto que o escritor angolano (e português) escreveu na prisão da pide (assim, com letra pequena), em Luanda, entre dezembro de 1961 e abril de 1962, com publicação volvidos quarenta anos.
A benefício de inventário, diga-se ainda que ali por 2001 voltou esse bloco significativo a uma publicação de título  O regresso à condição.Viseu, ut pictura poesis, sendo a ideia titular de Ricardo Pais, tendo eu parte colaborativa na organização da antologia poética e plástica.

2017-09-13

Aquilino e a língua de autor


Em asserto que só pode ser definitivo, Urbano Tavares Rodrigues defende:

«Nas literaturas de língua portuguesa, as que de momento nos importam, é ainda maior a distância entre o caudal vocabular e sintáctico dos grandes clássicos, à excepção de Camões, que rompeu a barreira de vários códigos limitativos, e as línguas de autor, prodigiosamente amplas e fecundas, de um Aquilino Ribeiro, de um Guimarães Rosa, de um Luandino Vieira.» (A natureza do acto criador, Lisboa, INCM, 2011, pp. 10-11.)
É bom ouvir isto hoje em dia de celebração e de exemplar trabalho criativo. Aquilino nasceu hoje e sempre será futuro.

2017-08-29

Pensamento assistido por Teixeira de Pascoaes


Recito Pascoaes porque não sei dizer assim:

«Amo os anarquistas porque a minha índole é maldosa, como a de todos os seres que não têm vergonha de viver, pois viver é persistir na prática dum crime. Saiba isto o senhor santo da montanha, e o senhor anacoreta do deserto, e outros lobos e camelos, que o lobo é santo e montanha, como o camelo é anacoreta e deserto, e a baleia é nauta e oceano, e a cotovia é ave e céu.» (O Homem Universal, Lisboa, Edições Europa, 1937, pp. 58-59.)

Santo, santo Pascoaes...

2017-08-24

Pensamento assistido por André Breton

Subscrevo, claro:

«A beleza convulsiva terá de ser erótica-velada, explodente fixa, mágico-circunstancial, ou não será beleza.» (André Breton, O amor louco, Lisboa, RBA Editores, 1995, p. 20. Tradução de Luiza Neto Jorge.)

2017-08-09

SOBRE O LEITOR DE AQUILINO – O CASO DE JOSÉ MANUEL MENDES




SOBRE O LEITOR DE AQUILINO – O CASO DE JOSÉ MANUEL MENDES

Não pode haver fé nisto: um leitor é um leitor, não é uma “carroça” de interesses. Dos afeitos aquilinianos, leitores dele, do Mestre, sem exclusivo, não valerá a pena falar – os textos críticos aí estão desde há décadas sem interesse de nomeação.
Serve este intróito para dizer que Aquilino, como mão escrevente de obra canónica e incontornável, interessa aos leitores que lêem, não às facções e interesses, que nesse produtivo jogo se esgotam, com toda o êxito temporal que nisso se encerra.
Citarei, no entanto, um desses leitores que, porque o é, lê Aquilino, tanto mais que o nosso escritor, que José Manuel Mendes também é, ´permanecerá indisputável – um leitor lê Aquilino, sem discussão.
Diz Mendes e eu subscrevo, com um arrepio na pele, face ao carácter certeiro do asserto:
«Daí que recordar hoje Aquilino Ribeiro, um dos indómitos construtores dos estuários de abril (em que não mergulhou a sua euforia pelo conjugar de energias para um porvir mais justo), seja honrar o aceso passado da nossa esperança transformadora. Aquela que prossegue em nós, qualitativamente fertilizada pelos sinais e experiências de uma certeira visão da história, por sobre todos os incidentes, até cumprir-se a humanizadora jornada que é o húmus que nos aviventa,» (Mastros na areia, Viana do Castelo, Centro Cultural do Alto Minho, 1987, p. 36.)
Assim Aquilino, assim o poder de uma profunda transmissão…

Viseu, 9 de agosto de 2017
Martim de Gouveia e Sousa