2016-08-18

[memória de fogo]


[memória de fogo]

ainda lembro a penumbra de tudo
um mar  vasto de  sons  e sonhos
a rebentação dos poros na manhã
a imensa luz como aracne na pele:
um grito fundo musical nas ondas
por mim fendendo os trabalhos
como se os dias isso não fossem...

ainda lembro o horizonte vasto
o brilho visceral dos olhares vivos
a macieza dos pomos os frutos
breves e dóceis na palma da mão:
a faca então cortante o doce disso
deflagrando dos pés ao coração
como um friso de mel  ardendo…

¿que de mim ouves mulher aérea
dos ramos vindo célere copiosa
de sede em mim sendo este fogo?

2016-08-16

Carlos de Lemos prefaciador



Conhecedor de Poe e Wilde, o Carlos de Lemos prefaciador mostra-se sempre um monumento de cultural. Leia-se e aprecie-se a ginástica do intelecto lemiano.

2016-08-06

[“ouves eu”, sinestesia & pontuação: «Nave de Âmbar» de Porfírio Al Brandão]


[“ouves eu”, sinestesia & pontuação: Nave de Âmbar de Porfírio Al Brandão]



Integrando-se em tautologia na coleção “prazeres poéticos”, esta Nave de Âmbar avança no espaço e distende-se no tempo, sendo, no passo, lugar sagrado, poético, iniciático.  Afirmando-se navio residual, é de estilhaços vitais que a viagem se faz, perscrutando-se espelhos, vitrais e estrelas. É de um tempo antigo que o Poeta fala, de um espaço contíguo, habitável, quotidianamente interior, restaurando raízes e frutos memoriais.
Do silêncio vindo, dele sendo, é desse ruído o “navio de espelhos” de Al Brandão. Repito, do silêncio, dos “cristais da respiração”, do nome, da nomeação. [poema da p. 7.]
Navegando desde há anos, esta poesia brandoniana mantém-se visceral, do coração, cordial, funcionando o músculo como o ouriço de Derrida, abrindo-se e fechando-se, mostrando o dentro e o fora. Na pele e no reverso, na pele permanece o vulcão de palavras [poema da p. 10], declinando órgãos, biologias, geografias, bocas e falhas, encontros e desencontros… Rompendo, o fundo material decapita-se em raros golpes de agramaticalidade – de pontuação, v.g., em boa parte da Nave.
Do corpo sendo a poesia, eis que ele armazena, engaveta e dissemina como um formidável armário de transcendências simples colhidas na pétala nox.
Cheio, pleno de trabalhos do olhar e do coração, esta coletânea é um livro bem e malpassado, com agradáveis ecos al bertianos, plathianos e cesarianos. Não há morte para este livro [poema da p. 44], que é uma ardência e fogo admonitório a que aplico, neste fim, o transfigurado passo do esgar à Cesário Verde: “milady poesia, realmente é perigoso contemplá-la.” A poesia, um risco, um fogo – esta, a de Porfírio Al Brandão.
Viseu, 6 de agosto de 2016
Martim de Gouveia e Sousa

                                                                     

2016-07-28

[alexandria-1]


[alexandria-1]

na noite nua de cigarro em punho o homem dizia palavras e sonhos
sentava-se na brisa do tempo dilatava o tronco ao sabor da beladona
e nem a cidade ardida culpada de todo o transe encontrava punição
que não fosse aquele ardor dentro do ativo silêncio da escuridade...
e dentro de tudo sobre o tudo disso calmo esse humano sorvia arak
todos os perfumes sonoros do buezim vindo como o ar nas palmeiras
serpenteando no prismático dos olhos e nas junturas dos velhos lábios.]
e lia joyce com espanto diziam aqueles outros que nada liam e sabiam]
em lengalenga breve aperrada nas sílabas como se urbe não existisse...]
tudo em excesso era pecado coração na boca nas mãos nos olhos
sabendo que a teologia das palavras explodia no centro da paixão 
que dentro da cidade um só corpo neste corpo podia dentro estar
nada os rubros tarbushes podendo esconder deste fogo desta sede.   

2016-07-12

A tradução em Aquilino e o grito de Pound

A tradução em Aquilino e o grito de Pound

Não é preciso pensar para logo concluir do longo trajeto de Aquilino Ribeiro como tradutor, tal se provando, década a década, durante cerca de meio século. No entanto, é na sua fase nascente como homem de letras, na primeira década do século XX, que mais essa forma de aprender o mundo mais o toma e assoberba e com os resultados que sabemos – poderia ou poderá um grande escritor emergir de outro modo, sem esse exercício disciplinado e filológico?
Como Pound, Aquilino foi um centro de tecnicismo e profissionalismo. A escrita deveria ser trabalhada em buril oficinal até ao resgate da receção. No entremeio, como o diria o Steiner, há que aprender de cor, com o coração, cordialmente, para melhor ler o mundo, vertendo-o em palavras pesadas em torno laboral que estratifica e dá acesso aos mundos da criação.
Como Eliot viu Pound assim nós devemos olhar Aquilino como “il miglior fabbro”, uma verdadeira fonte de energia ou uma fulgurante enciclopédia do fazer. Na retaguarda, iluminando em catáfora, só as bases sólidas da versão, da tradução e da regência vocabular – uma orquestra da composição, diga-se, que ousava abrir o mundo com a certeza das palavras e da inscrição filológica. Assim, afinal, as raízes de uma árvore incomensurável!...    

Viseu, 12 de junho de 2016

Martim de Gouveia e Sousa