2016-10-29

Pensamento assistido por Else Lasker-Schüler


Poder ser poeta e dizer o que diz Else Lasker-Schüler, eis um desejo. E escrever assim: «Há-de uma grande estrela cair no meu colo... / A noite será de vigília, // E rezaremos em línguas / entalhadas como harpas.» (Baladas hebraicas, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 45. Tradução de João Barrento.) 

2016-10-23

Sobre o jornalismo (pensamento assistido por Marcel Proust)

Diz Swann, no À la recherche du temps perdu -Du côté de chez Swann (1913) [Em busca do tempo perdido - Do lado de Swann]: 
«O que eu censuro nos jornais é obrigarem-nos todos os dias a dar atenção a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais.» (Op. cit., Lisboa, Relógio d' Água, 2016, pp. 32-33.)  

Pensar nisso, pensá-lo sempre...

2016-09-29

[guia de audição]

[guia de audição]

ouve-me agora neste rasto assim tão fundo
que cruza  todo o planeta e os longes mares
de espuma que transbordam no íntimo peito.

ouve o dia o insólito dos limiares o fogo breve
os leitos correndo contra as angústias do sangue
o súbito declinar dos dias os longos trabalhos.

encosta tudo à limpidez das horas às sombras
calmas das manhãs aos horizontes marinhos
entre tudo e nada fulgurando entre os dedos.

lê o poema e a agudeza: «Dá-me mais vinho,
porque a vida é nada.»  Conclui, conclui então
que, isso sendo, tudo é, porque o nada é tudo.

2016-09-15

Pensamento assistido por Lawrence Durrell


«Creio que os artistas se compõem de vaidade, indolência e amor-próprio. É o inflar do ego, o seu transbordar para alguma daquelas frentes o que paralisa o trabalho.» 
(Lawrence Durrell, O quarteto de Alexandria: Clea, Lisboa, D. Quixote, 2012, p. 759.)  

Tolerável num artista, sê-lo-á num não-artista? - pergunto eu.

2016-09-13

Aquilino é um lugar literário

Aquilino é um lugar literário

Um escritor só o é verdadeiramente quando não cessa de nascer. De um lugar vindo, desse lugar sendo, é ao mundo que pertence, nascendo quotidianamente na mão dos leitores. Óscar Lopes, um dos grandes municiadores da aura aquiliniano, plantou-o, desde há décadas, no centro canónico literário, aludindo a esse lugar de nome Aquilino.
Dizia um outro Mestre, João de Araújo Correia, por agosto de 1971, não haver “devoção nenhuma com lugares literários”, porque, quando a houvesse, iriam à serra da Lapa os admiradores de Aquilino.
Que descansem os Mestres! Os admiradores de Aquilino irão a todo o lado e não esquecerão que o melhor Aquilino vai nascendo sempre na flor dos dedos. Admirável Aquilino, nascendo sempre e em cada dia. E foi hoje…

Viseu, 13 de setembro de 2016

2016-08-18

[memória de fogo]


[memória de fogo]

ainda lembro a penumbra de tudo
um mar  vasto de  sons  e sonhos
a rebentação dos poros na manhã
a imensa luz como aracne na pele:
um grito fundo musical nas ondas
por mim fendendo os trabalhos
como se os dias isso não fossem...

ainda lembro o horizonte vasto
o brilho visceral dos olhares vivos
a macieza dos pomos os frutos
breves e dóceis na palma da mão:
a faca então cortante o doce disso
deflagrando dos pés ao coração
como um friso de mel  ardendo…

¿que de mim ouves mulher aérea
dos ramos vindo célere copiosa
de sede em mim sendo este fogo?